“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


21 comentários

Vidros

Sábado de manhã é dia de mercado em Estremoz; e de feira de velharias.

Há algum tempo que precisávamos de uma jarra para a água, mas não encontrava nada suficientemente bonito e prático que pudesse ser usado todos os dias.

Quer dizer, no supermercado é capaz de haver muitas jarras, mas não são tesourinhos.

Até que encontrei uns vizinhos da Marinha Grande a vender na feira de Estremoz.

Para além de ter achado graça ao facto da minha noção de vizinhança se ter alargado muito nos últimos meses da minha vida (estes senhores vivem a 70 km da Figueira da Foz), encontrei tantos vidros bonitos que foi difícil vir para casa só com a jarra.

jarra

Anúncios


13 comentários

Primos

Os nossos pais viveram sempre na mesma cidade.

Nós precisamos de nos situar geograficamente se falamos ao telefone.

Quando éramos pequenos, corríamos pelo pátio, pelos quintais, atrás das risadas e dos chilreios.

Agora continuamos a correr, sempre atrasados, sempre em urgências.

Dantes falávamos de viagens, projectos, sonhos e pequenos luxos.

Hoje falamos da crise, da precariedade dos nossos empregos; evitamos os projectos adiados e já nem referimos os sonhos adormecidos.

O que aconteceu ao brilho que nos antecedia?

O que está a acontecer à nossa pátria que, como diz o Caetano, devia ser mátria?

Tomai lá do O´Neil

Opressão paint

Para todos os primos da minha geração: Nós não somos os perfilados de que fala O´Neil!

Perfilados de medo

Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido,

os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido.


11 comentários

Decisões

Cresci com os livros da Anita, com Os Cinco, com o Asterix, com o Tintin, com telenovelas brasileiras, com o Principezinho, com os contos do Eça de Queirós (que a minha prima lia em voz alta, enquanto eu me dilacerava com o destino da pobre Aia), com a Mafalda, …

Mergulhava nestes universos tão distintos com a mesma entrega e com a mesma convicção e, no fim, fiquei como sou: mais humanista que feminista (ou machista) e com uma mão cheia de defeitos e virtudes que nada têm que ver com os livros que li…

Ou será que têm?

Em relação aos livros que a Beatriz lê ou filmes que vê, tenho um cuidado… obsessivo.

Na última visita à Biblioteca da Figueira da Foz, encontrei este testemunho da minha infância.

Li e reli este livro centenas de vezes quando era pequena.

capa cada terra com seu uso

São várias aventuras de personagens de vários pontos do mundo, com os seus respectivos estereótipos bem vincados.

página 1

E em que ser violento consistia nestas grandes maldades.

página 2

página3

Mas em que os protagonistas são, invariavelmente, personagens masculinas.

página 4

As personagens femininas surgem, sempre, para compor o cenário doméstico e nunca intervêm em qualquer aventura.

págna 6

E eu fico a pensar que, embora criança, tive a capacidade de filtrar o que me interessava do livro:

-a curiosidade relativamente a outras formas de viver e a outros povos, assim como o gosto pelas viagens.

Será que faço bem em exercer esta censura sobre os livros, músicas e filmes que a Beatriz vê?


8 comentários

Coup de foudre

Desde que me conheço que tenho tendência para o deslumbramento.

Com pessoas, músicas, livros, filmes, lugares, perfumes, sabores, …

Geralmente são amores que ficam para a vida e que eu vou revisitando.

Os dois últimos:

capa-kokoschka[1]

Com este livro tem sido a tal ponto que já sonhei com ele.

Disse mais ou menos estas frases no meu sonho:

Afonso Cruz tem uma imaginação tão prodigiosa que só consigo pensar na selva amazónica: luxuriante, livre e avassaladora. Páro a cada parágrafo para apreciar/reflectir acerca das imagens, ideias, personagens, situações incríveis que cria. Essa imaginação à solta faz-me lembrar alguns livros de Mário de Carvalho.

Mas em Afonso Cruz esse poder parece inesgotável. Cada situação narrada numa página já é suficientemente rica para criar um livro.

Não me lembro bem do que disse a seguir, mas não podia estar mais de acordo com o meu eu adormecido.

A imagem é do blog de Afonso Cruz.

Outro cup de foudre, agora musical: Youn Sun Nah

N.B. Os meus sonhos nem sempre são literários – geralmente saio de casa descalça ou tento, desesperadamente, usar o telemóvel sem me entender com o teclado; ou gritar sem me entender com o aparelho fonador…

Adormecer a Beatriz me com este livro teve ainda este resultado: elevou o nível dos locais por onde me passeio enquanto durmo.

Próxima missão: levar a Youn Sun Nah para as minhas deambulações  nocturnas!


21 comentários

O futuro da humanidade

Quando a Beatriz tinha 4 meses, visitei uma creche.

Gostei do local e das pessoas, mas vim para casa dilacerada com a ideia de deixar o meu bebé com estranhos.

A partir desse momento percebi que nada faz sentido na nossa sociedade.

Deixar o nosso bebé é contranatura.

Para mim ainda é.

A minha Mãe salvou-nos.

Quando a Beatriz tinha um ano e meio, fiz nova experiência, num local de elevada reputação nacional.

O mundo moderno ocidental não está preparado para receber os seus filhos.

Ou eu não faço parte do mundo moderno ocidental.

Não encontrei sorrisos nem abraços, a não ser aqueles que eu dava a todas as crianças nos 20 minutos diários que passava na sala do bibe azul.

A minha Mãe salvou-nos.

E o meu Pai e a minha Tia Alice.

Mudança de cidade.

Não fui à creche.

Salvam-nos a Tia Alda, a Prima Cristina, a Avó Silvana e todos os primos que aparecem e trazem sorrisos e brincadeiras.

Sinto que está certo assim.

No meu íntimo, todas as mães que viveram antes de mim dizem-me que sim e eu confio.

Comprovam-no a alegria , o sorriso constante e as aprendizagens diárias da Beatriz.

Não é uma decisão fácil.

Nem entre a família.

Parece que rejeitar a creche é ir contra uma ordem estabelecida muito maior do que uma simples creche.

Talvez seja questionar-nos enquanto sociedade (frenética, materialista e implacável) e isso é sempre incómodo.

Felizmente, sei que não estou só.


9 comentários

Praia Mar

Este é um livro cheio de Verão, de praia e de mar.
Com 35 cm de altura, obriga-nos a mergulhar nas ondas.
DSC02591 Paint

Comprei-o quando a Beatriz ainda gatinhava e, nessa altura, o livro, aberto, preenchia-lhe o horizonte.

DSC02592 Paint

Sem texto, Bernardo Carvalho leva-nos a “passear, a molhar os pés nas poças, a explorar as rochas onde se agarram os mexilhões e anémonas de muitas cores” (contracapa do livro).

Leva-nos ao prazer de estar na praia, desligar o botão “ter de” e parar.

E é esse o espírito que perpassa todo o livro.

DSC02597 Paint

O resto é para inventar. Nós damos nome às personagens, inventamos relações familiares, reconhecemos o Avô nestes bigodes…

DSC02595 Paint

DSC02600 Paint

Até que, “em menos de nada, já o azul inundou as páginas, fazendo-nos mergulhar” ( texto da contracapa).

DSC02611 Paint

É um livro de Bernardo Carvalho e da Planeta Tangerina.

A minha dupla preferida.


23 comentários

Sozinha

Sinto uma grande admiração por pessoas que viajam sozinhas.

Possuem dentro de si a satisfação plena.

Todas costumam comentar que sentem falta, em alguns momentos, de alguém com quem partilhar a magnífica paisagem ou o episódio caricato, mas é um mal menor.

Para mim, é um mal maior:

O prazer da partilha não se dissocia do prazer da descoberta.

Para além disso, tenho um sentido de (des)orientação tão apurado que iria estar frequentemente em apuros.

Em 1951, a fotógrafa Ruth Orkin, que viajava sozinha por questões profissionais, encontrou, em Florença, a artista Ninalee Craig.

7[1]

Ruth ficou encantada com esta jovem viajante solitária e decide tirar-lhe uma série de fotografias, com o sentido de incentivar outras mulheres solteiras a partirem nesta grande aventura das viagens solitárias.

Numa praça em Florença, a reacção masculina foi assim.

Ninalee Craig havia de dizer:

“Cobri-me bem com o meu xaile. Era a minha proteção, o meu escudo. Eu estava a caminhar por um mar de homens. Estava a desfrutar cada minuto. Eles eram italianos e os italianos encantam-me”.

Uma mulher ousada e inspiradora.

A fotografia e a informação foram retiradas da Revista Bula.

A admiração continua aqui deste lado, em 2014!