“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Coisas assombrosas

Se eu fosse poeta, era este o meu poema.

De Natália Correia.
pássaros na cabeça
Creio nos anjos que andam pelo mundo,

Creio na deusa com olhos de diamantes,

Creio em amores lunares com piano ao fundo,

Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

.
Creio num engenho que falta mais fecundo

De harmonizar as partes dissonantes,

Creio que tudo é eterno num segundo,

Creio num céu futuro que houve dantes,

.
Creio nos deuses de um astral mais puro,

Na flor humilde que se encosta ao muro,

Creio na carne que enfeitiça o além,

.
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,

Creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

.

Um dia vou escrever este poema pelas paredes da minha casa.

Um dia vou viver neste poema.

A minha cabeça cheia de pássaros é do blog da ilustradora Violeta Lópis.


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Nuvens

O tema da Mãe voadora voltou.

Com novos contornos.

mãe voadora

Já me decidi: gosto muito.

Um dos meus defeitos é andar frequentemente com a cabeça nas nuvens, num mundo diferente daquele que nos mostram na televisão às 20:00h.

Andar com os pés a meio metro do chão às vezes é bom, outras (amiúde) provoca-me aparatosas quedas.

O Papá também conheceu uma nova versão.

papá

Não podemos andar os dois ao mesmo tempo a viajar nas nuvens.

E, apesar da alma poética, é muito mais lúcido do que eu…

Está tal e qual…


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Garimpar

Quando referi o móvel da minha Bisavó Celeste, a Helka do blog Forma: Plural utilizou a expressão garimpar.

É a palavra que melhor traduz o que faço: recolho objectos antigos, mais ou menos usados, como se fossem pepitas de ouro ou pedras preciosas.

Já falei da feira de velharias no post sobre o mercado de Estremoz.

Mas o meu espírito recolector estende-se a todas as áreas.

Fico especialmente satisfeita quando me oferecem/emprestam roupa de criança com história, como este casaco que já foi usado pela prima Carminho e agora passeia com a Beatriz. Ou o capuchinho azul da Maria João, a filha da Palmira.

Uma confissão: não consigo usar roupa em segunda mão cuja proveniência desconheço.

Apesar de todo este discurso, tenho cá as minhas esquisitices. Talvez um dia lá chegue…

camisola

Fico também radiante com prendas como estas da filha da Palmira e da filha da Amélia.

livros dados

Às vezes sinto-me mesmo uma respigadeira, sobretudo quando recolho o que está condenado ao fim ou quando olho para os contentores do lixo. Foi um hábito que ganhei com um grande amigo e que já me valeu alguns tesourinhos.

Como esta porta-espelho recuperada por ele.

porta

Numa casa antiga e enorme como a de Estremoz encontrei um manancial incrível e, como existem poucos móveis para arrumação, decidi procurar e aproveitar o que já estava abandonado há muitos anos.

As toalhas da Beatriz arrumam-se num cesto que veio da Ilha da Madeira com presentes para toda a família.

Na altura em que se traziam muitas lembranças e os cestos iam no avião sem complicações.

cesto das toalhas

cesto inteiro

E os sapatos descansam das correrias do dia numa mala muito viajada e que já atravessou várias vezes o Atlântico.

mala e sapatos

Como só estou há três meses nesta casa “tão grande”, sinto-me uma garimpeira com muito por explorar.

E com esperança de muito “bamburrar”.

Esta expressão foi mesmo para impressionar – “bamburrar” :

Expressão utilizada pelos garimpeiros, para definir sorte no trabalho, acertar na  procura de um diamante precioso, achar uma pedra de grande valor, ficar rico, sucesso financeiro, sucesso na vida.

Eu também não conhecia!


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Recuperar

Um post sobre economia doméstica, imbuído do espírito deste livro.

Nos anos 70/80 todas as casas tinham uma iogurteira.

Por vários motivos: falta de tempo, excesso de oferta nos supermercados, prazos cada vez mais dilatados, capricho, vício do açúcar, presunção de modernidade… e comodismo, este simples electrodoméstico desapareceu, durante décadas, da minha vida.

É da minha Mãe e, agora, é usado quase todos os dias.

iogurteira

A Beatriz é a cozinheira:

1 litro de leite do dia Vigor (Gordo);

1 colher de sopa de leite em pó;

1 iogurte natural.

Mistura-se tudo muito bem e passam a noite na iogurteira.

Têm um sabor e uma consistência muito superiores aos de compra.

Outra preciosidade: da minha Avó Rosa.

A panela de pressão.

Gosto do nome, do tamanho e da forma.

panela de pressão

Uso-a com pressão e como panela normal.

Depois da braseira e da escalfeta terem sido recuperadas, chegou a vez da salamandra.

O conforto da casa, com o calor do início dos tempos, é imbatível.

O lar e o fogo sempre estiveram ligados.

O “lar” é a pedra onde se acende o fogo.

O lar é onde está o calor no final do dia.

lenha

Outro hábito recente: Semear.

Alimentarmo-nos do que vemos nascer dá-nos tranquilidade e poder.

Nesta Primavera, vamos trazer as nossas sementinhas para Estremoz.sementinhas

E ainda tenho um longo caminho a percorrer…

Um dia hei-de organizar-me e fazer o meu pão.

A receita fica aqui para eu não me esquecer.

pão

A fotografia é da autora de um blog imperdível Panelas sem depressão.

Por cima do pão: a forma mais doce de aproveitar o excesso de fruta da estação.

doce de morango

Hábito da casa, muito anterior ao Frasco de Memórias.

Doce de morangos inteiros com baunilha.

 

Eu ainda não fiz o pão do blog Panelas sem depressão… grande vergonha!

Mas vejam o pão da Joana e da Flor de Lima!

Que cheirinho!


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Velas

De regresso à leitura solitária, depois de meses de encantamento e partilha de livros com a Beatriz.

Consegui, finalmente, equilibrar os dois momentos.

Livros

Comecei com A Boneca de Kokoschka e tive de seguir com Afonso Cruz: Para onde vão os guarda-chuvas.

Ainda na página 145 e já com várias pontas de páginas dobradas.

-Os telescópios não servem para aumentar as estrelas, mas para diminuir o ser humano. São máquinas de nos fazer pequenos.

-As estrelas somos nós. Quando Alá nos observa, é como quando nós olhamos para o céu: o que Ele vê são luzes. Cada homem é uma vela a brilhar no escuro […] é assim que Ele consegue ler à noite.

Para além do prazer de ler frases destas, em continuum, adormeço tranquila com a ideia de que sou um vela de Alá e que é (também) por minha causa que Ele lê os seus livros à noite.

Boa leitura!

 


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O mais importante na vida

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Hoje a Beatriz faz três anos e eu ando, desde manhã, a ouvir este poema “Curiosidades Estéticas” de António Botto.

*

O mais importante na vida

É ser-se criador – criar beleza. 

*

Para isso,

É necessário pressenti-la

Aonde os nossos olhos não a virem.

*

Eu creio que sonhar o impossível

É como que ouvir uma voz de alguma coisa

Que pede existência e que nos chama de longe.

*

Sim, o mais importante na vida

É ser-se criador.

E para o impossível

Só devemos caminhar de olhos fechados

Como a fé e como o amor.

*

O milagre da poesia: cria identificações improváveis e aproxima espíritos distantes, no tempo, nas vivências, nos amores.

São vários os indícios que apontam para a homossexualidade de António Botto e, não obstante, esta Mãe  passou o dia com o poema na cabeça e com a filha no coração.

Há três anos descobri a continuação deste verso:

O mais importante na vida…

Fotografia de Melanie Rodrigues.


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De mão dada

Duas frases de homens.

Duas celebrações do Amor.

Apanhadas por Pedro Mexia.

«A única regra segura nesta matéria é tratar sempre com uma mulher, e nunca com as mulheres.

«Mulheres» é um termo depravado; tenho-o usado repetidamente neste capítulo, mas soa-me sempre a canalha.

É um termo que cheira a cinismo e hedonismo oriental» (Chesterton).

«Gostar de mulheres» é, de facto, uma banalidade um pouco canalha; mas «gostar de uma mulher» é um acontecimento.

fotos com a namorada

Damiel (Bruno Ganz) descobre o amor de uma mulher e torna-se humano: «Agora sei o que nenhum anjo sabe».

As fotografias são do fotógrafo russo Murad Osmann: andou pelo mundo e fotografou-o, de mão dada com a namorada.

Descobri-o aqui.