“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


11 comentários

Replantar

Mudar de casa implica, num segundo ou num vigésimo momento, mudar a casa.

Primeiro partem os objectos essenciais e, depois, os que nos alegram os dias e fazem já parte da nossa vida.

Os livros têm vindo.

As plantas também.

Muitas morreram na nossa casa pequena da Figueira.

-As casas precisam de atenção assim como as plantas; se não morrem.

Foram as palavras da minha Mãe, quando me entristeci ao ver o caril e o poejo secos nos vasos.

plantas para replantar

Trouxe todos estes vasinhos com filhotes para Estremoz.

Replantei-os.

Replantei-me.

sardinheira 1

sardinheira

Na Figueira, cobri os vasos com seixos que fomos trazendo da praia: evita-se assim a evaporação da humidade e previne-se o crescimento de ervas-daninhas.

No Alentejo, comprei esferas de argila para proteger a sardinheira.

Acompanham-me nestas tarefas as gatinhas da casa: a Beatriz e a Branca.

Deliram com estas esferas e com todos os utensílios de jardinagem.

sementes

regador e viola

Na rua, observam-nos os gatos vadios.

vaso e gato

Há qualquer coisa de felino em nós: todos os gatos parecem querer adoptar-nos.

 

 

 


8 comentários

Presente

Ter um blog é receber presentes diários.

Ou melhor, é celebrar o Presente.

Para além das visitas de quem gosta de me ler, dos comentários e troca de ideias, da descoberta de afinidades, às vezes há assim surpresas.

prenda do José Magalhães

Obrigada, José!

Finalmente permiti que a Beatriz pegasse nesta peça tão delicada.

Só por alguns minutos…


6 comentários

Olfacto

Cada mercado tem os seus cheiros, os seus sons e as suas cores.

Revelam-nos hábitos alimentares, rotinas e características dos locais.

É por isso que eu gosto de mercados.

Na Figueira, prevalece o prateado do peixe e as cores das flores envoltas em plástico.

Em Estremoz, é o verde das hortaliças e o cobre das velharias.

alfaces

rabanetes

E uma quantidade incrível de raminhos perfumados de coentros, salsa, poejo, alecrim e hortelã.

Em Março, encontrei tangerinas.

Um citrino, misteriosamente, quase em extinção nas lojas portuguesas.

tangerinas

O melhor dos Sábados de manhã?

Maria e Beatriz no mercado

Ter estas duas grandes companheiras de compras: a Beatriz e a nossa vizinha de fim-de-semana, a Maria.

A nossa memória olfactiva começa a construir-se desde que nascemos e acompanha-nos por toda a vida, transmitindo-nos sensações de conforto e confiança.

É o que eu espero que aconteça.

Quando estes pintainhos partirem sozinhos, hão-de sentir-se surpreendentemente tranquilos e felizes ao cheirarem um vaso de hortelã ou um raminho de alecrim.

E só nós vamos saber porquê.

 

 

 


6 comentários

Orange Marmalade Português

Na altura em que não vivíamos afundados numa crise,

embora o país já estivesse, citando um alto dirigente político, “de tanga” (a qualidade lexical dos nossos governantes sempre foi exemplar…),

fui à Escócia e encantei-me com os pequenos-almoços.

Aliás, encantei-me com a paisagem, com o pôr-do-sol, com a hospitalidade escocesa e com B&B que são lições de arquitectura!

Nessa altura, tomava o pequeno-almoço escocês com ovo, bacon, tomate e… café com tostas e Orange Marmalade caseiro.

Todos os dias!

 

A minha Mãe nunca fez doce de laranja e eu achei o sabor destes doces caseiros surpreendentemente delicioso.

E muito distante daquele terrível cozido de laranja que se vende no supermercado…

 

Decidi, então, recolher receitas de quem faz muito bem este doce.

Segundo o que li, o “orange marmalade” remonta ao século XVII

(o historiador Ivan Day refere o livro de receitas de Eliza Chomondeley, de 1677!),

embora a lenda o associe para sempre a James Keiller e à solução acidental da sua mulher para conservar quilos e quilos de laranjas compradas, a baixo preço, em Sevilha.

A propósito, descobri, nas pesquisas que fiz, que a palavra “marmelada” é portuguesa (deriva de marmelo) e foi depois adoptada pelos franceses e, posteriormente, pelos britânicos.

2014 foi o ano escolhido para eu vencer receios e fazer o doce mais demorado e exigente que já experimentei.

Não faltam laranjas: do pátio da minha Avó Rosa, do quintal da minha Mãe e do Vale da prima Cristina.

Todas biológicas e adoçadas pelo Sol.

laranjas

E assim nasceram duas versões:

Doce de Laranja British

orange marmalade

Um doce mais próximo da versão original inglesa, mas em que foi retirada toda a parte branca da laranja e, portanto, toda a acidez excessiva.

 

Doce de Laranja Alentejano

orange marmalade 2

Um doce mais suave, adoçado com o mel puro da Serra d´Ossa.

Escorrido, sem centrifugadora, dos favos elaborados pelas abelhas.

mel serra d´ossa

É um enorme prazer trabalhar com estes produtos portugueses de grande qualidade.

Custa-me até acreditar que os nossos antepassados portugueses não tenham experimentado conservar as laranjas em mel e, depois das Descobertas, em açúcar.

Não foi por acaso que demos ao mundo a “marmelada”, essa forma tão nossa e saborosa de conservar marmelos!

 


13 comentários

Terra

De dia para dia, cada vez estou mais convencida de que as melhores ferramentas que posso oferecer à Beatriz são apenas uma: cultura.

A cultura do espírito, através dos livros e, por conseguinte, do pensamento.

A cultura da ética.

A cultura da terra.

Se ainda não consegue ler sozinha e se anda, por vezes, perdida em birras cuja resolução, acredito eu, podem ajudar a formar esse código de rectidão que ambiciono; quanto à cultura da terra, esta menina de três anos está na fase de “aprender fazendo”.

Para além de ser responsável pelo alecrim, a Beatriz semeia e trata da erva Catária da Branquinha.

1- Colocar terra no vaso e humedecê-la com um pulverizador.

SEMENTEIRA 1

2- Espalhar as sementes e regar com frequência.

3- Ver o milagre da Natureza a desenrolar-se perante os nossos olhos.

Sementeira 2

4- Encantar-se e desejar bom-apetite à Branquinha.

Sementeira 3

E o ciclo repete-se quinzenalmente…

 


8 comentários

Expressão

Costumo dizer que a nossa Branca é a gata mais canina que eu conheço.

É um elogio, porque também gosto muito de cães.

E a Branca reúne as melhores qualidades dos cães e as melhores qualidades dos gatos:

adora-nos e espera-nos à porta;

aparece repentinamente se ouvir a Beatriz a chorar;

gosta de festas na barriga e de brincar às escondidas connosco;

é incapaz de arranhar-nos;

acompanha-nos para todas as divisões da casa;

mas gosta dos seus momentos de solidão e tranquilidade.

Um amigo meu diz que o problema dos gatos é que são inexpressivos.

Durante algum tempo achei que ele tinha razão.

Mas perante uma situação inesperada a Branca ficou assim.

Branca espantada

E eu fiquei com a mesma expressão:

-O que é isto?

-Não é possível!

-No meu quintal?

-Outra vez?

2 gatinhos 2014

gatinhos e Biti 2014

Mas será que a cegonha dos gatinhos tem alguma fixação comigo?

São adoráveis… e procuram uma família adoptiva!

gatitos no chapéu 2014

Próximo passo: perguntar se a Câmara de Estremoz tem algum programa de esterilização de gatos vadios.

Já fui; não têm – agendei uma reunião com o veterinário da Câmara no meu quintal!

 

 


15 comentários

Blessed

Ter um blog:

-Olhar para o lado luminoso da Vida.

-Reflectir profundamente acerca do que me rodeia.

-Questionar-me.

E muito mais:

– fez-me pertencer a uma pequena comunidade de pessoas que vou conhecendo e apreciando cada dia que passa (as pessoas que gostam de ler-me e as pessoas que eu gosto de ler).

Finalmente, fui passar uns dias à nossa casa pequena e encontrei esta preciosidade que já está pendurada na parede.

postal

A autora: a Filósofa!

Obrigada ♥