“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Construir

2014 foi o ano de todas as construções, recuperações e transformações.

Construímos um novo lar.

Construí um novo quintal.

Reconstruí-me.

Recuperei antigos hábitos.

Repensei-me.

Reconstruímos o Frasco de Memórias.

Recuperei o amor que tinha pela minha profissão.

Construímos novas relações.

Redefinimo-nos.

muro de pedra

Em 2015, quero que todas as pedras do muro fiquem amarelas e aveludadas.

Quero um ano que me ajude a concretizar as mais belas transformações e a suportar as saudades da minha família materna e paterna.

Saudades da minha Mãe, do meu Pai, do meu Irmão, da minha Avó, da minha prima do coração, da minha Tia Alice,

da minha amiga Virgínia, da Raquel, do meu amigo Mário, das minhas amigas de Coimbra,

dos meus vizinhos.

Acho que se nomear os meus desejos, o Novo Ano não tem desculpa!

Feliz 2015!!!

Que se concretizem os vossos mais íntimos desejos!

 

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Obax

A Obax veio connosco da Feira do Livro de Estremoz.

Assim, cheia de pressa para chegar a casa e conhecer-nos.

Obax capa

Aprendi muito com este livro do nosso querido André Neves.

Aprendi que, para além de um ilustrador excepcional, André Neves cria narrativas maravilhosas: no sentido literário da palavra – mistura o real com a fantasia de uma menina somali.

Aprendi como se diz “flor” em Somali: Obax.

Aprendi a deixar-me levar pela mão da Beatriz e vi que a Obax também faz iogurte.

Obax 1ªpágina

Que vive num local mesmo bonito e amarelo, a cor favorita da Beatriz: o sítiol ideal para partilhar histórias.

Obax 2ªpágina

Vi que a Obax come granola.

Obax 3ªpágina

-Ah! Também come granola como nós, já viste?

-Pois é.

-Que estranho!

-Estranho, porquê, Beatriz?

-Porque ela é muito diferente.

-Achas? O que é que tu achas diferente?

-O nariz; não é como o nosso.

Obax 4ªpágina

Fiquei tão feliz por ver que a minha filha se acha tão próxima das meninas somalis; excetuando o pormenor do nariz nada a espantou.

Nem o facto da Obax andar num elefante!

Obax 5ªpágina

Nem o facto de Obax dar a volta ao mundo à procura de uma chuva de flores.

Não andámos todos durante a nossa infância?

Nos bons dias, ainda andamos, depois de crescidos.

 

E como se chamam as bolinhas do cabelo da Obax?

Birotes.

Obax 6ªpágina

Quanto à chuva de flores, ela caiu, quando “milhares de pássaros surgiram a riscar o céu da savana”.

O que é que eu tenho de fazer para encontrá-la nos meus dias?

Olhar mais para o céu e encontrar a chuva de flores que ainda vive em mim.

As personagens de André Neves são tão marcantes que, para além de nos ensinarem, tornam-se referências cá em casa.

Da editora Paleta de Letras.

 


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Árvore

No Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner, foi o pinheiro, o mais alto pinheiro da floresta, que milagrosamente  se iluminou e salvou o Cavaleiro da escuridão.

árvore de Natal comestível

Desejo que, neste Natal, todos os pinheiros iluminados abracem a mesma missão!

Feliz Natal!


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Colecções

É mítico o uso que a minha Avó Jesus dava à Língua Portuguesa.

Conheci pouco a minha Avó Jesus, mas havia sempre uma expressão ou uma palavra cheia de graça.

O meu Pai falou várias vezes em fazer uma antologia com estas expressões que em breve iriam perder-se.

E perderam.

Porque achamos sempre que  “agora não tenho tempo!” e que o mundo vai girar devagarinho à nossa espera.

Não é assim.

Lembrei-me da minha Avó quando li este texto do Professor Rui Bebiano.

cigarro Rui Bebiano

Parece uma extravagância e provavelmente é-o, mas comecei há uns anos a coleccionar palavras a caírem em desuso. Não me refiro às de um arcaísmo patente, já só conservadas em livros, jornais e cartas antigas, mas sim àquelas que ainda são utilizadas e das quais se servem apenas algumas pessoas das gerações mais velhas, membros de determinados agrupamentos políticos ou cidadãos socialmente agregados por certas práticas e rituais. Apenas um exemplo: a palavra «larápio», à qual ninguém recorre agora quando quer nomear o ladrão, pouco me interessa, mas «gatuno», que já só aparece nas imprecações dos estádios de futebol – naturalmente dirigidas ao infeliz árbitro da partida e intercaladas com ofensas à sua progenitora – ou no discurso político da direita e da esquerda mais arcaicas, é um must. Talvez este seja um tique profissional, forçado que estou a seguir, se não se quiser tornar-me críptico para quem me ouve em aulas e seminários, a mudança cada vez mais veloz e ziguezagueante dos vocábulos e dos seus sentidos.

Entretanto iniciei outra colecção. Desta vez a dos gestos que estão a evaporar-se ou deixámos de encontrar no dia-a-dia deste lado de cá do hemisfério norte. A primeira peça da colecção retirei-a de um filme dos anos 50, a preto e branco, visionado ao acaso no YouTube. Ela documenta o hábito cada vez mais proscrito de fumar fazendo desse acto uma parte importante do jogo social: aquele modo único, pouco higiénico mas que funcionava como marca de à-vontade, de estilo, por vezes de provocação, de apagar o cigarro, dentro de um café, no hall do cinema ou numa repartição pública, atirando-o ainda incandescente para o chão e esmagando-o sem piedade com o tacão ou a sola do sapato. Uma marca de macho ou de «mulher da vida» que, se repararem, quase desapareceu do nosso horizonte. Tal como engraxar os sapatos em público, cuspir para o lado sem qualquer aviso, usar um pente no bolso posterior das calças e servir-se dele com regularidade, limpar os ouvidos com o mindinho ou tamborilar com os dedos em cima do balcão do bar enquanto se espera pela cerveja gelada. Espera-me pois uma missão na arqueologia do contemporâneo. Pouco urgente, mas uma missão.


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I´VE BEEN THERE

Conversas secretas:

-Não achas o B.  muito giro?

-Sim…

-Não o achas mesmo irresistível?

-Sim…

-Não achas que é o homem mais giro da cidade?

-Hum… se calhar, é.

-Que entusiamo! Nem num fim-de-semana?

-Um fim-de-semana inteiro? A partilhar a intimidade de acordar de manhã na mesma cama? Não!

4-C2-A9HannahLemholtPhotographyBlack02TAndF[1]

“I´ve been there!”

É uma expressão sem tradução.

Só o contexto transmite todas as suas matizes.

É muito solidária, quando só é preciso um abraço.

Já aí estive!

Ou transmite a ideia de evolução:

Já aí estive e aprendi.

 

Decididamente, falta-me a paciência para contemplar uma pessoa que tenha uma cara ou corpo bonitos ou que até possa ser rico do ponto de vista intelectual,

mas que se distraia a praticar a sedução.

Este último ponto, geralmente, inquina o possível interesse do seu autor.

 

O final desta conversa secreta:

-Para além disso, o B. tem uns pés tão feios! Já viste o que é passar um fim-de-semana com aqueles pés?

-Os pés?! Feios?! Como é que sabes?

-Ora… vi-o de chinelos no Verão.

Nada irresistíveis!

 

A verdade é que este é o meu método para eliminar qualquer tipo de tentação vã – pés feios, ar de  Rato Mickey, sorriso palerma, …

É uma estratégia.

A imagem é do blog Dustjacket.


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Amuses bouche

A Dina é Mãe do meu querido … sobrinho-neto (!!!) e pediu-me para partilhar algumas receitas.

Fiquei atrapalhada, porque me sinto uma principiante perante a minha família do Alentejo.

Quer dizer, exceptuando as compotas, as bolachas as granolas não alcanço muito crédito na cozinha.

Talvez sejam inseguranças de quem não sabe fazer um bom cabrito assado ou umas migas alentejanas…

“Quer aprender a fazer canapés?”

Foi com esta questão que uma senhora muito bem intencionada (preocupada com a minha falta de manifestações exteriores de catolicismo) me pôs a fugir.

Achei a expressão antiquada; provavelmente influenciada com a forma de estar da autora e com o seguimento do programa para uma tarde de Sábado que prometia…

A verdade é que gosto muito de entradas ou como os franceses, muito humoradamente, lhe chamam amuses bouche.

Gosto tanto que, por vezes, são a minha refeição principal.

Amuses Bouche de Mascarpone e Salmão

canapés de salmão com queijo e hortelã

1- Bolinhas de cereais cortadas ao meio;

2- Queijo mascarpone misturado com flor de sal, cebola, limão, picante e coentros;

3- Salmão com muito sumo de limão e hortelã.

Amuses Bouche de Tomate seco

Tomate seco em azeite e queijo

1- Bolinhas de cereais cortadas ao meio;

2- Tomate-cereja seco ao sol Frasco de Memórias:

3- Queijo Camembert e orégãos.

Simples, fácil… e “diverte a boca”!

 

 

 


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O Retorno

O Retorno capa

Foi há três anos que o meu Tio de Coimbra me ofereceu este livro no Natal.

A Beatriz nasceu, sucederam-se outras leituras e eu sentia que tinha uma dívida para com o Tio Bivô.

Todos os portugueses têm familiares que retornaram das ex-colónias.

Eu também.

Os meus pais escaparam a essa catástrofe nacional por um acaso do destino: a minha Mãe tinha os sapatinhos brancos prontos para a grande viagem para Moçambique, mas arranjou um emprego muito bom em Portugal.

O meu Pai regressou à metrópole e assim acabou em bem esta história.

Não foi assim para mais de um milhão de portugueses.

O Retorno de Dulce Maria Cardoso relata esses meses entre os últimos dias em Angola e os primeiros tempos em Portugal.

O narrador é um adolescente de 16 anos.

 

“Mas na metrópole há raparigas lindas. Raparigas com brincos de cereja, laços de cetim no cabelo e saias rodadas pelo joelho como nas fotografias das revistas que comprava na tabacaria do Sr. Manuel. O Sr. Manuel foi o mais esperto, embarcou com a família no Príncipe Perfeito no dia 31 de dezembro do ano passado, ainda quase não se ouviam tiros nem o martelar dos contentores, não vos dou um ano para estarem todos a fazer o mesmo, queira deus queira que nessa altura ainda haja navios e madeira bastante para encaixotarem o que têm, queira deus queira.

Agora já sabemos que deus não quis.”

 

O relato é tão vívido e intenso que eu adormeci angustiada durante várias noites, pensando no que seria a minha vida se me expulsassem da minha casa e do país que sinto como meu com uma mala e uma nota de cinco contos.

E se aterrasse num outro país que eu só conhecia dos mapas da escola, sem emprego, sem casa e (por vezes) sem família voluntariosa a receber-me?

A angústia aumenta quando fecho os olhos e sinto que nesta casa onde durmo se viveram esses momentos de dor, revolta e tristeza.

retornados

Esta imagem foi publicada aqui.

filas na tap retornados

Esta é daqui.

São as filas intermináveis para embarcar no avião da TAP que trazia os retornados para a metrópole.