“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

O Retorno

9 comentários

O Retorno capa

Foi há três anos que o meu Tio de Coimbra me ofereceu este livro no Natal.

A Beatriz nasceu, sucederam-se outras leituras e eu sentia que tinha uma dívida para com o Tio Bivô.

Todos os portugueses têm familiares que retornaram das ex-colónias.

Eu também.

Os meus pais escaparam a essa catástrofe nacional por um acaso do destino: a minha Mãe tinha os sapatinhos brancos prontos para a grande viagem para Moçambique, mas arranjou um emprego muito bom em Portugal.

O meu Pai regressou à metrópole e assim acabou em bem esta história.

Não foi assim para mais de um milhão de portugueses.

O Retorno de Dulce Maria Cardoso relata esses meses entre os últimos dias em Angola e os primeiros tempos em Portugal.

O narrador é um adolescente de 16 anos.

 

“Mas na metrópole há raparigas lindas. Raparigas com brincos de cereja, laços de cetim no cabelo e saias rodadas pelo joelho como nas fotografias das revistas que comprava na tabacaria do Sr. Manuel. O Sr. Manuel foi o mais esperto, embarcou com a família no Príncipe Perfeito no dia 31 de dezembro do ano passado, ainda quase não se ouviam tiros nem o martelar dos contentores, não vos dou um ano para estarem todos a fazer o mesmo, queira deus queira que nessa altura ainda haja navios e madeira bastante para encaixotarem o que têm, queira deus queira.

Agora já sabemos que deus não quis.”

 

O relato é tão vívido e intenso que eu adormeci angustiada durante várias noites, pensando no que seria a minha vida se me expulsassem da minha casa e do país que sinto como meu com uma mala e uma nota de cinco contos.

E se aterrasse num outro país que eu só conhecia dos mapas da escola, sem emprego, sem casa e (por vezes) sem família voluntariosa a receber-me?

A angústia aumenta quando fecho os olhos e sinto que nesta casa onde durmo se viveram esses momentos de dor, revolta e tristeza.

retornados

Esta imagem foi publicada aqui.

filas na tap retornados

Esta é daqui.

São as filas intermináveis para embarcar no avião da TAP que trazia os retornados para a metrópole.

 

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Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

9 thoughts on “O Retorno

  1. parte da minha família materna, primos da minha mãe, viveram esta realidade. felizmente estavam bem protegidos em termos de laços familiares, mas isso, não conforta a perda de um modo de vida construído segundo padrões que, para a época, eram aceitáveis. estas imagens estão muito presentes na minha cabeça. bom fim de semana!

  2. Olá , Ana !

    Esses tempos, já iam tão longe na minha memória.
    Lembro-me tão bem (depois do teu post ). Conseguiste uma análise feita de forma muito sensível e amiga para os que tiveram de regressar.
    Na minha família há apenas casos de primos.
    Mas lembro-me dos problemas com o IARN,e de ser criada uma divisão entre continentais e das famílias obrigadas a regressar.
    Houve erros de ambas os lados ,como em tudo na vida… oportunistas que obtiveram fundos indevidos,assim como da desvalorização deste nosso cantinho,por parte de quem regressou .
    Houve ainda muitas injustiças na colocação de empregos ( prioridades para os retornados e a muito frequente falsa habilitação …)
    Período muito complicado ,mas a parte mais frágil, foi a dos que se viram obrigados a regressar.
    O ser humano é … muito egoísta,e tem a mania que é mais esperto !
    Bom fim de semana!
    Beijo,
    Joséóscódradinhos 🙂

  3. Um período da nossa história que revelou o melhor e o pior do povo Português.
    Como dizes todos temos histórias de família e amigos… infelizmente no meu caso todas elas revelaram a inveja e a maldade das pessoas com um total desprezo pelo ser humano…felizmente todas elas com um fim feliz, ou seja, todos vivos e prontos para uma nova vida!

  4. Olá, José!

    Em primeiro lugar não sabia dessa nova condição: aos quadradinhos!?
    Solidário com o Sócrates 🙂

    Em relação à descolonização, acho que há muitos lados mas considero que o processo se fez da pior maneira possível.
    Com muito sofrimento e revolta que provocaram mágoas que nunca foram ultrapassadas… válido para quem regressou e, em situações pontuais, para quem já cá estava.

    A chico-espertice é dos piores defeitos!

    Bom fim-de-semana!
    Beijo,

    Ana

    • Olá, Ana !

      Acho que o “grande culpado” foi o final do verão.
      Arrumei o calção de banho, e depois olha…aconteu esta nova condição. 😉
      Só me resta aguardar,não é ?
      Até ?

      Não sei se gostas,mais vai pata ti !

      Bom domingo !

      Beijo,
      José

  5. Sou italiana minha cara e parte de minha familia veio ao Brasil em busca de melhores condições de vida, alguns foram para os EUA. Deixaram tudo para trás: casa, amigos, e parentes. Minha tia, com quem vivi depois da morte de meus pais, foi uma dessas pessoas, só soube dela no dia da audiência de guarda diante do juiz. Até então só sabia dela através das fotografias da nona.

    Vim para cá com 14 anos e contava os dias para retornar a casa. Algo que ocorreu quando completei meus 18 anos. Não me acostumei naquele primeiro momento a cidade nova, as pessoas, ao idioma (por isso acho graça quando alguém diz que não tenho sotaque ou escrevo bem o idioma local). É inusitado habitar essa realidade outra, o que me faz pensar nas dificuldades que todas essas pessoas vivenciam ao escolher deixar o próprio país para ir a outro.

    Retornei anos mais tarde, por conta própria para trabalhar minhas novas escolhas e cá estou. Não foi fácil, mas não posso dizer que foi difícil. Foi surreal em alguns momentos, mas tive e tenho certeza das minhas escolhas. Preservei minhas origens e contatos, aliás, muito mais fortes que antes.

    Mas eu já tive contato com muitas pessoas que, infelizmente, se perderam de si mesmas nessas “aventuras”.
    bacio

  6. Não tenho familiares que tenham vivido isso.

    Mas a mãe da minha melhor amiga desde a infância, deixou Angola de mãos a abanar. Os avós desta minha amiga eram donos dum quarteirão em Nova Lisboa e recordo-as a contar como enviaram malas e malas de roupas, linhos e atoalhados que nunca cá chegaram…

    Não conheci essa realidade, mas li esse livro e senti na pele apenas uma nesga do que terá sido isso…

  7. Adorava ler o livro. Tenho familiares que passaram por esta situação. E por vezes perco-me nas suas histórias.

  8. Li este livro o ano passado e também gostei bastante. A minha família não é retornada mas viemos de Moçambique em 77, pelo que algumas coisas me são familiares. Felizmente as coisas correram pelo melhor, mas sei que os meus pais passaram por muito e fizeram grandes sacríficios nos primeiros anos depois de termos cá chegado.

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