“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Paridade

10 comentários

Na escola da Beatriz há algumas meninas, mais velhas, que mostram os vestidos novos quando chegam.

A L. veio passar a tarde connosco e, na sua timidez, perguntou-me se eu já tinha visto as suas “leggins” de ganga.

Eu sou vaidosa, mas fiquei tão espantada que nem percebi logo a questão.

Entretanto, a Beatriz andava em plena loucura de rega no quintal com galochas e cheia de lama.

Não sei como vai evoluir a Beatriz, mas por enquanto ainda usa o meu baton com a mesma naturalidade com que “faz a barba” com  o Pai, lê livros, faz bolachas, chapinha no quintal ou salta nos colchões.

É uma fase essencial do desenvolvimento, da construção de modelos e do autoconceito.

Nem todos os pais pensam muito nesta questão;

de outra forma não proliferariam tantos vestidos, acessórios e bugigangas rosa-choque (de gosto muito duvidoso)

e outras tantas princesinhas animadas que mais não fazem do que suspirar pelo seu príncipe e enfeitar-se a si e ao que as rodeia.

Na pouca televisão que vemos, há uma distinção clara entre animação para meninos e animação para meninas.

E a questão é: o que pretendemos nós, adultos, do futuro dos nossos filhos?

Num mundo perfeito, os filmes de animação, para crianças, seguiriam, prioritariamente, padrões de qualidade:

haver um protagonista ou uma protagonista era secundário – qualquer criança identificava-se com a missão do herói, com os seus medos, com a sua bravura e desenvolvia a vontade de construir uma equipa e viver as mesmas aventuras, quer o líder usasse tranças  ou cabelo à escovinha.

Não é assim.

E os produtores de cinema vivem e alimentam (-se de) preconceitos.

Gostei muito desta intervenção de Colin Stokes, no TED: “The Hidden Meanings in Kids´Movies: um pai que começou a despertar para estas questões, com a filha e com o filho.

Dos 100 filmes produzidos em 2011, nos Estados Unidos, quantos tinham uma protagonista feminina?

11!

Com algum humor, Colin aconselha-nos a fazer o teste Bechdel:

1- O filme inclui duas personagens femininas?

2- Essas personagens falam uma com a outra?

3- O tema da conversa vai para além do rapaz por quem estão apaixonadas?

 

Quero um futuro com mulheres que vivam a vida intensamente, incluindo a amorosa;

mas que nunca se sintam limitadas ou se autolimitem por serem mulheres;

que pensem no que vão vestir no dia seguinte, mas que não seja só esse o objectivo do seu dia!

 

Uma em cada cinco mulheres, nos Estados Unidos, já foram sexualmente ofendidas.

Onde aprenderam os rapazes esse comportamento?

Colin Stokes aponta responsabilidades:

Os meninos crescem num universo em que o herói tem de vencer o inimigo com violência e, no final, recolher a recompensa:

“the girl” – de preferência uma que não fale muito!

Que imagem de poder estamos a dar aos meninos/rapazes?

Por todos estes motivos é importante repensar que filmes vemos em casa:

com protagonistas que meninos e meninas queiram como amigos e que não reiterem o sarcasmo contido na frase “coisas de menina”.

E quase todos os de Miyasaki!

Mais sugestões?

 

 

 

 

 

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Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

10 thoughts on “Paridade

  1. É curioso como os pais ficam logo aflitos se um rapaz brincar com bonecas, mas não há problema em uma rapariga brincar com carros. Isso dá logo a ideia de que tudo o que é feminino é embaraçoso, mau. devia haver mais gente a esquecer os esteriótipos e muita mais representação no cinema e na literatura. Precisamos de heroinas que o são por si só, não de raparigas que só entram na história para servir de acessório ao herói principal.

  2. Ana, adorei este artigo. Revejo-me nesta preocupação e cuidado. Obrigada pela partilha! (não conhecia o filme “epic” vou pesquisar!) Beijinhos

  3. Em boa hora este post. Eu ando no mar de duvidas. Às vezes penso que sou mãe careta, que estou sempre a cortar… Recuso ténis cravados de brilhantes coloridos à minha filha, dizendo que não consigo vê-la por trás de tanta espampanância. Recuso vesti-la de rosa da cabeça aos pés, tentando fazê-la perceber que é demasiado piroso (será, ou serei eu?). Adio a pintura das unhas, agradecendo o facto de ela ter partido o frasco de verniz orgânico e adequado a crianças que apenas consegui encomendar no Canadá. Mas questiono-me se não será este o momento para brincar às piroseiras e se não estarei a privá-la de experiências que não farão sentido mais tarde. Cedo nos chinelos hello kitty, nuns autocolantes frozen, resisto às t-shirts estampadas com mil princesas disney… Não sei. A verdade é que é um ser aparte na escolinha dela. help!!!!

    • A Beatriz também anda um pouco em dessintonia na escola: há coleguinhas que dizem que os vestidos dela mais simples são feios 😦
      Ela não parece importar-se muito, mas conta-me…
      Vou permitindo uma piroseira ou outra, mas limito ao máximo a “espampanância” também.
      A Beatriz, às vezes, pinta as unhas: não é nada de que me orgulhe, mas é uma das cedências!
      Vamos partilhando experiências, combinado?
      P.S. Cor de rosa da cabeça aos pés é piroso 🙂

  4. Também gosto dos filmes do Shreck, mas os meus preferidos são mesmo os do Miyasaki. Debato muito com estas questões. Principalmente na representação das mulheres nos contos da Disney, em que a donzela tem de ser salva. Histórias estas que estão muito longe dos originais dos irmãos Grimm. Fico pasmada com esta mensagem de que as mulheres tem de ser salvas por homens e que não tem a capacidade de superar os seus problemas com resiliência, inteligência e sagacidade. Já para não começar a falar sobre a “hiper-sexualização” de algumas personagens das séries animadas mais populares e a as imagens distorcidas do que deve de ser um corpo ou não. Debato estes temas apaixonadamente porque se por um lado estas animações não ajudam na construção de mulheres independentes, por outro não deixam muito espaço para que se possa manter e cultivar o que é ser uma criança.

  5. Muito bom. Não tinha pensado nisto assim. Talvez porque a minha filha ainda não chegou a este ponto. Gostei muito de ler este ponto de vista e do TED. E concordo com uma versão mentalmente mais saudável de mães que educam os seus filhos e filhas, não longe de preconceitos, mas opondo-se aos maus preconceitos. Parece-me mais útil e interessante.

  6. Pingback: Meninos |

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