“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

A Viagem de Sophia

8 comentários

“Viagem”, enquanto metáfora do nosso percurso de vida, está presente no nosso quotidiano e na literatura.

Em escritores como José Saramago ou Sophia de Mello Breyner.

O conto “A Viagem”, de Sophia, atravessa a minha vida desde a adolescência.

Marcou-me quando tinha 15 anos e cada vez faz mais sentido.

Um casal viaja, incessantemente, à procura de um local ideal de que tem um conhecimento vago.

É esse local que os orienta, mas também é a ânsia desse lugar que os impede de desfrutar as paisagens por onde vão passando.

Soa familiar?

Os erros, as insatisfações, as desilusões, a impossibilidade de viver o dia que já passou,… e a inevitabilidade do fim estão tão presentes na “viagem” do casal protagonista que nós sofremos por eles,

sofremos com eles e sofremos sozinhos, por nós, depois de fecharmos o livro.

“- Logo que chegarmos – disse ela -, vamos tomar banho no rio.

– Tomamos banho no rio e depois deitamo-nos a descansar na relva – disse o homem, sempre com os olhos fitos na estrada.

E ela imaginou com sede a água clara e fria em roda dos seus ombros, e imaginou a relva onde se deitariam os dois, lado a lado, à sombra das folhagens e dos frutos. Ali parariam. Ali haveria tempo para poisar os olhos nas coisas. Ali haveria tempo para tocar as coisas. Ali poderiam respirar devagar o perfume das roseiras. Ali tudo seria demora e presença. Ali haveria silêncio para escutar o murmúrio claro do rio. Silêncio para dizer as graves e puras palavras pesadas de paz e de alegria. Ali nada faltaria: o desejo seria estar ali.

Através dos vidros, campos, pinhais, montes e rios fugiam para trás.

– Devemos estar a chegar à encruzilhada – disse o homem.

E seguiram.

Rios, campos, pinhais e montes. E meia hora passou.

– Já devíamos ter chegado à encruzilhada – disse o homem.

– Com certeza nos enganámos no caminho – disse a mulher.

– Não nos podemos ter enganado – disse o homem -, não havia outro caminho.

E seguiram.

– A encruzilhada já devia ter aparecido – disse o homem.

– O que é que vamos fazer? – perguntou a mulher.

– Seguir em frente.

– Mas estamos a perder-nos.

– Não vejo outro caminho – disse o homem.

E seguiram. […]

– Estamos a perder-nos cada vez mais – disse a mulher.

– Mas onde há outro caminho? – perguntou o homem.”

Excerto do conto, inserido no livro Contos Exemplares.

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Sophia de Mello Breyner

Imagens de Sophia espalhadas pela net.

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Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

8 thoughts on “A Viagem de Sophia

  1. a encruzilhada, essa, é que atrapalha o seguir em frente! Ou talvez não, talvez, seja ela a permitir mudança de rumo, encontrar novos horizontes.
    Bom fim de semana!

  2. Gostei muito de o ler há uns bons anos, daqueles contos que nos desorientam o pensamento. Acho que vou reler e ver o que sinto após tanto tempo. 😉 ( Ana, assim como eu, as miúdas adoraram o Totoro, em especial a Mariana, a minha filha mais velha. É muito bonito). Beijo e bom fim de semana.

  3. A literatura e mesmo fascinante. Comigo e Jane Austen que me acompanha, desde os nove anos. Já li orgulho e preconceito dúzias de vezes. rs

  4. Ultimamente tento me ater ao percurso, o chegar ou não tenho deixado a segundo plano. Beijo

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