“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

A nossa infelicidade é burguesa

7 comentários

Hoje o dia foi igual aos outros…

O meu colega de trabalho é presunçoso.

Ai, a Beatriz anda a comer doces.

Sem ler, começo a ficar pouco inteligente.

A L. é culta e tão assertiva.

A entrar nos 40 já devia ganhar o dobro e ter reconhecimento, pelo menos, nacional.

A minha barriga nunca mais ficou a mesma depois da gravidez.

Havia de ir duas vezes por semana ao ginásio.

 

São as preocupações tão sérias que às vezes me perturbam o espírito.

Preocupações que em vez de o elevarem e lhe recordarem que pertence ao céu, o prendem à terra.

 

Preocupações de quem tem um dia rotinado.

Preocupações de quem se pode afastar perfeitamente dos homens que não a respeitam.

Preocupações de quem tem uma oferta demasiado grande de alimentos para colocar no prato da filha e no seu próprio prato.

Preocupações de quem tem dinheiro para livros e excelentes bibliotecas à disposição.

Preocupações de quem tem um trabalho que lhe permite viver condignamente e em que pode, por vezes, efectivamente, fazer a diferença.

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Inês Pedrosa, neste artigo, fala deste nosso culto civilizado de suspirarmos tristes e insatisfeitos.

Hoje em dia, se respondemos “Estou óptimo!” temos de ser meio-tontos ou insensíveis ou lunáticos.

Afinal se não controlamos tudo, não podemos tudo, não temos tudo… como podemos estar felizes?

A escritora descreve a lição dada por um professor de ex-meninos soldados:

“No fim de uma aula no mato – com a terra como caderno e pauzinhos de árvores como lápis – , um professor descalço veio oferecer-nos um pé de laranjeira, dizendo, num sorriso radioso:

«Para vos dar felicidade».

Entendi naquele instante que a douta e talentosa Yourcenar não tinha razão: não, a felicidade não é um sub-produto; só quem a tem nas mãos (casa, comida, paz, livros, adulações) pode divertir-se a despedaçá-la, com uma ferocidade infantil.

O professor descalço de Moçambique sabia isso. Aprendera o valor de estar vivo e de partilhar o seu conhecimento com garotos regressados do inferno terrestre. Aprendera a saborear o prazer de uma laranja. E não sofria da infelicidade sofisticada de que terá sofrido o misterioso Shakespeare (que completa em Abril 400 anos) e de que sofremos todos nós, os ungidos pela civilização do dinheiro, da fama e do espectáculo: a de invejarmos ou sermos invejados.”

Lembrete:

“Mas já é tempo de deixarmos de reverenciar a desgraça enquanto sinal exterior de inteligência:

não há nada tão burguês, confortável e conveniente como o culto organizado da infelicidade. ”

Imagem : a perseguir balões de ar, quando a perfeição das plantas está ao nosso alcance…

 

 

 

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Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

7 thoughts on “A nossa infelicidade é burguesa

  1. Adorei, Ana. 🙂 Beijo e boa semana, com muito sol

  2. Uma semana muito luminosa, Joana!

  3. Olá Ana !
    Tão verdadeiro !
    Toca a valorizar o que temos…e aprender a ser felizes .
    Gostei muito e subscrevo !
    Boa semana !
    Beijo,
    José

    • Olá, José!

      Às vezes, no correr dos dias esqueço-me do essencial…
      É uma questão de treino e o post funcionou como uma cábula para mim.
      Que bom que também seja a tua 🙂

      Um abraço,

      Ana

  4. Pingback: Solidez |

  5. Olá, Ana!
    As tuas descobertas são sempre uma revelação. Palavras tão bem alinhadas e atentas à realidade.
    Um grande beijinho,
    Mia

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