“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Extracto de um diálogo

“-Tenho saudades de minha casa, lá na Itália.

-Também eu gostava de ter um lugarzinho meu, onde pudesse chegar e me aconchegar.

-Não tem, Ana?

-Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.

-Como não?

-Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.”

O último voo do flamingo, Mia Couto

O facto de eu e a personagem feminina termos o mesmo nome não é pura coincidência.

“Aquela casa era a sua nação. As dimensões dessa nação não cabiam em mapa métrico. Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior do que o mundo.”

Venenos de Deus Remédios do Diabo, Mia Couto

 

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Cru

Os poetas modernistas são de uma crueza impressionante;

uma crueza bem distante do peso da vida em que vivem, felizmente, a maior parte dos adolescentes.

Às vezes, sinto-me uma quebra-sonhos, às voltas com a dureza e o desencanto de poemas tão profundos, mas tão negros.

E lamento que, no correr do “programa a cumprir porque pode sair no Exame”, falte tempo para ler os poemas luminosos dos poetas modernistas.

mario-de-sa-carneiro

Não sendo o poema que se segue propriamente optimista, mostra um lado de Mário de Sá-Carneiro sarcático e bem-humorado.

E quem é que, depois dos 40 anos, não tem dias tão secos e esfarelados que sente na boca cada palavra desta “Serradura”?

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro, Paris, Setembro 1915

Um poema intenso mas incompreensível aos olhos de almas de 17 anos (ainda bem!).

É preciso viver para interpretar.

A crueza das palavras reflete a agudeza das emoções do poeta:

sete meses depois de ter escrito este poema, Mário de Sá-Carneiro deixa mesmo a sua vida num quarto de hotel em Paris, aos 26 anos.

Faz hoje 101 anos.


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Remoçar

Os 40 são muito inconvenientes.

As costas doem, a resistência é outra (noites a dormir pouco levam semanas a recuperar…), a memória atraiçoa, os cabelos brancos e a pele testemunham a passagem do tempo.

Felizmente, a cabeça ainda mantém alguma irreverência… sensivelmente até às 21:00h!

De repente, os vestidos super ameninados, que eu sempre adorei, parece que destoam.

As florinhas e os folhinhos também têm de ser q.b. para não parecer que assaltei o armário da Beatriz.

O que voltou foi a franja; tem de se ameninar de alguma maneira, se não ainda me confundem com uma respeitável senhora de… 40 anos.

Fiz esta.

Mas adorava ter cabelo liso para esta mini-franja.

Ou para esta.

Mas tenho de me contentar com estas mais compridas… e mesmo assim à custa de escova e secador: ninguém disse que “ameninar” não dá trabalho.

E quem me dera que a minha ficasse assim sossegada…

Encaracolada só fica mesmo gira na Sheila.

 

 

 

 


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Sublimar

“Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera.

É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos.”

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

Oxalá consigamos, ao longo da vida, identificar o verdadeiro papel que nos cabe e que nos reconheçamos no desempenho dessa superação!

Votos de uma Páscoa Feliz!

 


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Mudança

No último dia do ano de 2016, conversava com a minha prima Graça acerca dos melhores votos para 2017.

Acordámos que os votos deviam incluir a palavra “mudança”.

2017 devia ser um ano de mudança; para melhor, claro.

Temos este hábito bem português de nos queixarmos e andamos com o fado entranhado nos ossos, mas esquecemos os exemplos dos nossos antepassados que conseguiram, mais ou menos pacificamente, fazer mudanças.

Às vezes, as mudanças podem ser bem pequenas, mas tornam a vida melhor:

seguem algumas que estou a conseguir fazer, com dias melhores do que outros!

1- Reduzir o consumo de doces, levar mais fruta para o trabalho e cuidar de mim;

2-Evitar redes sociais que me transmitem a sensação de que acabei de perder o meu tempo: Facebook e Instagram;

3-Reduzir a lista de afazeres diários e ver filmes/séries ao serão, em alternância com leituras;

4-Comprar menos “coisas”;

5-Cuidar mais do lar e seus habitantes (humanos, animais e vegetais);

7-Colocar um ponto final no trabalho do dia, antes de ele me deixar K.O..

8-Evitar pessoas e situações potencialmente tóxicas;

9-Tentar ser mais amável para todas as pessoas;

10-Só fazer granola quando tiver um número considerável de encomendas, ou seja, haverá fins-de-semana de granola, mas não haverá granola todos os fins-de-semana.

 

Li este texto inspirador acerca da mudança:

“Há um dia em que voltas a escolher.

Respiras o equilíbrio entre o desiludir ou desiludires-te, entre o respeitares ou respeitares-te, entre o fazer feliz ou seres {tu} feliz.

Levas o sol debaixo da pele, a coragem dentro do coração e a simplicidade na palma da tua mão.

Há um dia em que acordas a decidir: por mais que a paz de espírito não pague as contas, é dela que te alimentas.

Porque viver não é sobre o que te falta, é sobre o que fazes com o que tens.”

Às nove no meu blog : texto.

Ann Street Studio: imagens – vejam este post!


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Portas e Janelas

A Lunna desafiou-me a publicar 6 fotografias, subordinadas a um tema, no sexto dia de cada mês.

O tema de Abril é “Portas e Janelas”.

Ora, eu tenho uma adoração por portas e janelas, portanto este desafio era mesmo para mim!

Portas e janelas de Estremoz:

 

Da minha casa:

Janelas para os mundos mais incríveis que me rodeiam:

 

Obrigada, Lunna!

Bacio!


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Intimidade

 Pró Pudor

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.
                                                                                                                                                                                                                           .
Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.
                                                                                                                                                                                                                             .
Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente…
                                                                                                                                                                                                                                                         .
Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés…
                                                                                                                                                                                                                                                          .

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde                                                                                                                                                                           .

Numa sociedade tão sexualidade, precoce e assustadoramente sexualizada, pouco se fala de intimidade.

Intimidade requer tempo, dedicação e muita persistência;

palavras pouco em sintonia com a rapidez dos dias e com a efemeridade e superficialidade da maioria das nossas relações mundanas.

 

Intimidade é resmungar, saber que há dias maus… mas acreditar, no íntimo, que o companheirismo e o amor os superam.

É saber que estarmos todos os dias juntos é maravilhosamente tranquilizador, mas que também implica saturação e algumas lutas periódicas… com o outro e connosco.

Intimidade é dar razão aos mais velhos quando eles dizem que ” é preciso muita paciência” e “morder a língua” para não magoarmos o outro só porque estamos exaustos de um dia duro.

Intimidade é saber que a maior parte dos dias não é digna de um anúncio da Coca-Cola, com abraços ao pôr-do-sol, mas ainda assim não querer ir para outro lugar.

Às vezes, até é querer ir para outro lugar, mas essa vontade desaparecer passados 15 minutos.

Intimidade é conhecer o outro e reconhecermo-nos quando estamos com o outro;

é soltar gargalhadas no mesmo segundo;

sentir os silêncios serenos;

comunicar de todas as formas e “querer bem”… sempre.

Intimidade talvez seja, como diz Cesário, “cócegas nos pés”… e na alma.

Imagem Happily Grey.

P.S. A Lunna diz que intimidade é “cafoné na alma”!

É mesmo!