“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Cru

3 comentários

Os poetas modernistas são de uma crueza impressionante;

uma crueza bem distante do peso da vida em que vivem, felizmente, a maior parte dos adolescentes.

Às vezes, sinto-me uma quebra-sonhos, às voltas com a dureza e o desencanto de poemas tão profundos, mas tão negros.

E lamento que, no correr do “programa a cumprir porque pode sair no Exame”, falte tempo para ler os poemas luminosos dos poetas modernistas.

mario-de-sa-carneiro

Não sendo o poema que se segue propriamente optimista, mostra um lado de Mário de Sá-Carneiro sarcático e bem-humorado.

E quem é que, depois dos 40 anos, não tem dias tão secos e esfarelados que sente na boca cada palavra desta “Serradura”?

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro, Paris, Setembro 1915

Um poema intenso mas incompreensível aos olhos de almas de 17 anos (ainda bem!).

É preciso viver para interpretar.

A crueza das palavras reflete a agudeza das emoções do poeta:

sete meses depois de ter escrito este poema, Mário de Sá-Carneiro deixa mesmo a sua vida num quarto de hotel em Paris, aos 26 anos.

Faz hoje 101 anos.

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Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

3 thoughts on “Cru

  1. Adorei! Ri até de muitas experiências e sensações que somente depois dos 40 é que saberemos compreender. Grata por compartilhar!

  2. Nossa, morreu tão novo o poeta!

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