“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Desnorte

Ser anónimo e estar longe dos que nos conhecem desde sempre pode ser libertador mas, a longo prazo, provoca-me um desnorte, que fico extremamente sensível a imagens que me abalam e transportam, como um raio, para esse vazio chamado saudade.

A minha prima apareceu-me assim.

 

Com o cheiro a tabaco, a pastilha elástica e a perfume.

E eu fiquei nesta saudade.

” [A saudade é] caracterizada por uma duplicidade contraditória:

é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória.

É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher:

é um não querer assumir plenamente o presente e o não querer reconhecer o passado como pretérito. […]

é um sentimento complexo, mesclado, doce-amargo, pouco propício à acção, e não deve ter contribuído pouco para que a personalidade portuguesa apareça a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal.

A saudade está ligada ao apego que se criou aos sítios, aos tempos e às pessoas que ficaram distantes.

E é uma característica do amor à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação.”

António José Saraiva, A Cultura em Portugal: Teoria e História

 

 

 

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Pássaros na cabeça

Mais um livro da Biblioteca de Estremoz.

Como muitos livros infantis, este é só aparentemente simples, permitido uma leitura mais superficial e outra bem mais complexa.

A mais profunda vou abordando aos poucos com a Beatriz.

Temos um rei, muito sensato e tranquilo com as suas escolhas.


 

Um rei que gosta de passarinhos e de refletir sobre o seu reino enquanto os alimenta e mima.

E temos três ministros ambiciosos, megalómanos, insensatos e que querem ficar para a história custe o que/ a quem custar (onde é que já vimos estes três?).

Três ministros que traçam um plano maquiavélico para enganarem o seu rei.

Ministros que expulsam todos os passarinhos do reino, os verdadeiros conselheiros do soberano.

Três ministros que merecem um grande castigo pela sua crueldade e egoísmo.

Um livro com uma mensagem muito lúcida:

Seremos todos mais inteligentes e felizes com tempo para introspeção e próximos da natureza!

Escrito pelo escritor cubano Joel Franz Rosell e ilustrado por Marta Torrão.

Da editora do coração Kalandraka!

 

 


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Alternância

O contraste luz/sombra, na ilustração, revela uma delicadeza que atrai o olhar.

É um jogo de subtilezas que faz percorrer todos os pontos de encontro dos tons simétricos.

A beleza do Outono vive desta alternância e de todas as matizes que surgem decorrentes de um sol oblíquo e apressado.

O encanto da vida humana resulta também deste contraste luz/sombra.

Mas é esse balanço que nos aterroriza!

É por causa dessa alternância que temos medo de assumir que somos plenamente felizes.

Mas também é essa oscilação que nos dá esperança num dia negro.

Votos de um dia luminoso!

Ilustrações do Pinterest: não consegui identificar os ilustradores, mas são japoneses…

 

 


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Esboço

“When you get older, you realize it´s a lot less about your place in the world but your place in you.

It´s not how everyone views, but how you view yourself“.

Natalie Portman

 

O lado bom de crescer talvez seja perceber e apaziguar-me com o facto da vida ser uma constante transformação… um esboço constante do lugar onde quero chegar.

O meu poder consiste em escolher as cores e os pequenos traços, fitar o horizonte e apreciar o voo.

A minha vida é assim: eu cada vez mais nua para mim própria… e a tentar escolher as melhores cores para este desenho.

Have a nice trip!

Ilustração: Killien Huynh.


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Sozinha

O sonho da maior parte das jovens que conheço não inclui viver sozinha.

Essa ideia recebe um nariz torcido e uns olhos abertos de espanto.

E eu espanto-me com esse espanto.

Não fui uma jovem muito irreverente, mas assim que comecei a ficar independente quis a minha casa.

Demorou, porque é muito mais económico partilhar.

Vivi 4 anos sozinha, em casas tão pequenas que não conseguia simular o homem de Vitrúvio, mas as mudanças foram sempre muito entusiasmantes e as noites muito, muito tranquilas.

Não me lembro de ter medo ou de sentir-me infeliz.

Lembro-me de acalmar facilmente na minha toca.

Ainda é assim muitas vezes.

Durante esse tempo, aprendi muito sobre mim, sobre as minhas qualidades, sobre como ultrapassar as minhas fraquezas e sobre as minhas limitações.

Houve dias difíceis, sobretudo devido a esses confrontos comigo, mas recordo esses anos como uma experiência de paz e luz.

Ficou-me, destes tempos, uma grande necessidade de estar em silêncio, com tempo e a sós.

Características que não são as mais esperadas numa mãe.

Valores muito difíceis de manter numa casa cheia e, felizmente, movimentada.

Hoje, numa outra fase da vida, de partilha constante e intensa, saboreio com calma e liberdade os minutos em que fujo para tomar um café…

só comigo!

Yaoyao Ma Van viveu 7 anos sozinha e recomenda, como testemunham as ilustrações.

É verdade, estou a ser pouco rigorosa: vivi sempre com dois gatinhos super-companheiros!

 

 


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Casual

O que mais me desgasta no correr dos dias é… correr.

Sempre em velocidade, sempre atrasada e sempre com a sensação de estar em falta com alguma tarefa.

Ainda estou à espera que a rotina se interiorize.

Já sei que não vou deixar de correr, mas habituo-me a esta vertigem.

Para já, e como o Verão ainda dura, ando a namorar novo calçado para correr com estilo!

Do blog da Andy.

No próximo Verão, talvez regresse o look boneca.

Imagem do blog Devil Wears Zara