“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Persistências e Afastamentos

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Redmond Barry é meu amigo, tem 40 anos, é bonito, culto e inteligente.

Tem tudo para se sentir absolutamente afortunado, mas é possível ser lúcido e feliz?

Fernando Pessoa já há muito deu resposta a essa questão!

Portanto, resta-nos reflectir.

Chegou o momento de dar espaço à perspectiva masculina, neste blog.

O que tens a dizer das tão assombrosas/espinhosas relações românticas?

Persistências e Afastamentos nas Relações de Longo Prazo

No final da década de 1960, José Cutileiro apresentava a sua tese de Doutoramento na Universidade de Oxford, posteriormente editada no final da década seguinte com o título Ricos e Pobres no Alentejo. Tratou-se de um estudo de antropologia social sobre a sociedade rural portuguesa do Sul com base, sobretudo, no trabalho de campo que o autor realizou em Monsaraz nos anos de 1965 a 1967. Ao analisar a vida conjugal, Cutileiro identificou o afastamento do casal à medida que “(…) os filhos monopolizam os cuidados e carinhos maternos a tal ponto que, ao cabo de alguns anos, quase não haverá espaço para [o marido] no coração da mulher”. Esta observação, todavia, não constituiu qualquer novidade, pois escrevendo igualmente sobre os costumes alentejanos, mas fazendo-o mais de 6 décadas antes, José da Silva Picão, lavrador da região de Elvas, notou precisamente o mesmo comportamento que acabou por imortalizar no clássico Através dos Campos.

               É assaz curioso verificar que os mais de 60 anos que separam os dois textos, no já aceleradíssimo século XX, não parecem ter feito qualquer diferença, pois tanto o cientista social recentemente falecido, como o aclamado autodidata que nunca passara da instrução primária, fizeram questão em registar o afastamento emocional entre marido e mulher após o nascimento dos respetivos filhos. Entre Picão e Cutileiro vai, muito mais do que a distância física entre Santa Eulália e Monsaraz, um oceano de diferença tecnológica entre a junta de bois e o trator; o comboio e o avião a jato; a oralidade dos contos tradicionais e a série Bonanza que podia ser televisionada nas casas mais abastadas ou no aparelho da Casa do Povo. No entanto, na intimidade tudo parece tremendamente igual.

“Separação” – 1896 – Edvard Munch

               E agora, cujo arco temporal que nos separa de Cutileiro é sensivelmente o mesmo que entre os dois autores atrás mencionados, estarão as coisas neste aspeto diferentes? Os ecos que me chegam parecem-me indicar que não. À classe masculina, nos relacionamentos heterossexuais, cabem as mesmas queixas efetuadas observadas há quase cento e vinte anos pelo lavrador de Elvas. Não obstante a falta de cientificidade das observações que registo – não serão mais do que uma vintena no funil que é o meu meio social –, surge-me a dúvida se tal é devido a questão biológica, a uma atitude social que teima em persistir ou, na opção aparentemente mais sensata, a um pouco de ambos. Quem perde são os maridos, as mulheres e as relações de longo prazo que parecem estar condenadas ao insucesso de uma separação ou a um perpétuo comodismo esmagado pelos compromissos entretanto assumidos pelo casal. Talvez, na realidade, as relações de longo prazo, muitas vezes materializadas no casamento, sejam uma tremenda fraude e não correspondam a mais do que uma estratégia económico-social adaptada às frágeis economias pré-industriais, mas totalmente desadaptadas à realidade pós-industrial, explicando-se assim a projeção que aponta para mais de 90 divórcios por cada 100 casamentos no ano de 2020 em Portugal.

Polémico ou unânime?

You Rock, Redmond Barry!!

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

2 thoughts on “Persistências e Afastamentos

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