“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Filas de Sonhos

Cautelosamente, vou mostrando à minha filha de 11 anos notícias do mundo.

Coloco o meu filtro, já que os noticiários são cada vez mais grotescos e cospem horrores em catadupa, sem qualquer reflexão prévia ou posterior. Desconheço as consequências desta prática diária à hora de jantar: desesperança paralisante, insensibilidade empática ou ataraxia social?

Os campos de refugiados envergonham-nos enquanto espécie e geram questões, no conforto do sofá, a que eu não consigo responder.

Como é que as crianças passam anos naqueles campos?

Não há respostas que consigamos dar aos nossos filhos, especialmente se pensarmos que integrámos 4,8 milhões de refugiados ucranianos em menos de um ano. Ainda bem que o fizémos, mas esse feito louvável evidencia a inércia e o cinismo evidentes em situações semelhantes.

Sou incapaz de contar à Beatriz o que aconteceu no dia 2 de setembro de 2015 com o pequeno Alan.

O menino tinha 3 anos.

Não consigo explicar-lhe que vivemos num mundo, onde estas tragédias acontecem, sob o olhar gélido dos adultos.

O livro Filas de Sonhos nasceu da promessa de Rita Sineiro, perante a imagem da criança síria, na orla da Turquia.

Conversei muito com a Beatriz enquanto o líamos.

Sobre a guerra que vivemos na Europa e sobre as outras que, embora distantes, nos matam todos os dias.

Falámos de proibições, medos, muros e fronteiras, mas também de generosidade e altruísmo.

Indignámo-nos contra as portas fechadas e os campos de tendas onde tudo falta e onde se espera pelo carimbo azul que permitirá retomar a vida.

Encolhemo-nos perante situações desesperadas e decisões fatais.

Mas nunca consegui contar-lhe acerca do fim do pequeno Alan que deu à costa numa praia da Turquia.

Igor Lebreaud escrevou e encenou a peça “Aqui, onde acaba a estrada”.

Li e relembrei outros momentos vergonhosos da nossa humana existência:

“Espanha, 2014. Polícia dispara balas de borracha e gás lacrimogéneo contra imigrantes que tentam chegar a nado à
praia de El Tarajal, em Ceuta.


Hungria, 2015. Governo conclui a instalação de uma vedação de arame farpado com 41 quilómetros, ao longo da fronteira com a Croácia, para travar o fluxo de imigrantes. Uma vedação semelhante, com 175 quilómetros, havia já sido edificada na fronteira com a Sérvia.


Itália, 2019. Governo proíbe durante três semanas a atracagem do navio Open Arms, que transportava 147 pessoas resgatadas no Mar Mediterrâneo, ao largo da costa da Líbia.


Reino Unido, 2022. Primeiro-ministro anuncia plano para deportar para o Ruanda imigrantes que entrarem ilegalmente no país.


Espanha, 2022. Mais de trezentos imigrantes são agredidos enquanto agonizam ao sol, numa vala encostada à vedação que haviam saltado, entre Marrocos e Melilla. Primeiro-ministro elogia actuação das polícias marroquina e espanhola.


Quando nos lembramos destes acontecimentos, sabendo que são apenas exemplos, percebemos que o conceito de “Europa-fortaleza” está longe de ser uma metáfora. Entendemos melhor quais são os “valores europeus” defendidos por quem governa os países da “Europa civilizada”. Torna-se uma evidência que “a guerra” não começou agora, que “a guerra” não acabou nunca. Apenas parecia mais longe, enquanto as vítimas não eram tidas como “a nossa gente”, enquanto “não atentava contra o nosso modo de vida, o nosso poder de compra e a nossa segurança (incluindo económica).


Talvez um dia alguém peça desculpa pelo que hoje está a ser feito, em nosso nome e por governos que elegemos. Entretanto, o portão está fechado e há gente a morrer.”

Este é um excerto da folha de sala da peça “Aqui, onde acaba a estrada”, levada à cena pela Escola da Noite.

Assisti a peça em Évora e recordei a função do teatro: alertar-nos para o poder da indignação individual e colectiva, num tempo de banalização do cruel e abjecto.

Devemos isso aos nossos filhos.

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Baixas paixões

No livro de Javier Marías, Berta Isla, a protagonista termina com uma citação de Dickens:

“qualquer criatura humana está destinada a representar um profundo segredo e mistério para todas as outras”. No entanto, “temos muitas pretensões: pretendemos decifrar as pessoas, sobretudo quem dorme e respira junto à nossa almofada”.

Estas são considerações tão inquietantes quanto fascinantes.

É muito mais confortável cristalizarmos um esboço de quem nos rodeia e criarmos uma narrativa (só nossa) que nos permite organizar o círculo social. Ficamos cómodos, arrumados e seguros, mas numa ficção.

É corrente esta tendência falaciosa, a nível pessoal, mas igualmente no âmbito social.

A verdade não tem importância, vendem-nos, diariamente, narrativas e nós já nem sabemos onde começaram as insinuações e suposições que nos encaminharam para uma historieta com “os bons” e “os maus”: quanto mais simples e polarizada for a acção, melhor para as massas.

É um terreno garantido, eficaz, facilmente comercializável e lucrativo, e assim se segue sem se procurar contraditório.

Vemos esse sensacionalismo vazio até nas manchetes dos nossos melhores jornais, sobretudo na sua versão digital e instagramável. O mercado do “clique” assim o obriga.

Numa sociedade polarizada, é fácil acirrar frentes e há quem não perca a oportunidade de ganhar com isso.

Na entrevista ao Expresso, um jornal de referência mas que também ganharia se revisse a sua conta de Instagram, reposta aquando da morte de Javier Marías, o escritor tenta explicar alguns retrocessos civilizacionais que observamos pela Europa.

[…] Como lê a ascensão da extrema direita e dos populismos?

É muito preocupante e perigosa. E tem a ver com o ressentimento latente na maior parte das pessoas. Algumas mais, outras menos, todas estão insatisfeitas ou invejam algo, sentem que o seu trabalho não foi suficientemente reconhecido ou veem que os outros vivem melhor. Isso nem sempre domina a personalidade, mas em certos momentos pode dominar. E quando há políticos que avalizam ou atiçam o ressentimento, ele salta facilmente. Ora, se este se tornar predominante nas relações humanas, o perigo é imenso, em qualquer época e lugar. No outro dia, li um artigo de uma brasileira que contava como, desde a vitória de Jair Bolsonaro, as pessoas se comportam como se tivessem carta branca. O que dá medo não é só este indivíduo que foi eleito, são os 56% dos votos que o elegeram. Os homossexuais e os negros estão a ser abertamente ameaçados. Isto leva a pensar que as pessoas, no momento em que veem legitimadas as suas paixões mais baixas, sentem-se no direito de atacar, insultar e ameaçar. De não esconder essas baixas paixões.

“Baixas paixões” é uma expressão dura.

É muito antiga. E podemos voltar a Shakespeare: basta que um Iago te segrede ao ouvido (ou com um megafone) as razões para alimentares o ressentimento, para que este apareça. É um sentimento muito fácil de criar — e é o que, em grande medida, ocorreu na Guerra Civil Espanhola. Os meus pais viveram-na aos 20 e poucos anos, e ouvi-os contar muitas histórias deste tipo. Além das questões políticas e ideológicas, foi como abrir a caixa dos trovões e dar licença às pessoas para cobrarem as suas vinganças.

(“Baixas paixões” é uma expressão bíblica retomada por escritores como Shakespeare; de todas elas, para este escritor, o medo era a mais aberrante. Na mitologia, surge a figura de Baco, como agregador de todas as “paixões baixas”. Tal como Javier Marías, preocupa-me muito o discurso de figuras com responsabilidade política que legitimam o assumir, sem pudor, das “paixões baixas”. Noutra acepção, as paixões carnais, com altos e baixos, são as únicas saudáveis.)

A fotografia é da dupla Agnes Kulesza e Lukas Pik.