“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Corpo

Tiffany ad Le Book

Meu Corpo Teu

Não me ensinaste a envelhecer
Mãe
Nem reparei sequer que envelhecias
Uma vez impacientei-me por não me ouvires bem
e tu disseste simplesmente: “Não vês que a tua Mãe
está a ficar velha?!”
Não via nunca tinha reparado protestei
não aceitei
Só agora compreendo
Agora que envelheces com meu corpo teu
ou que envelheço com teu corpo meu
Habituei-me a ver-te correr ligeira
à frente dos automóveis
a atravessar as ruas fora do risco dos peões
E de repente
sem avisar
a velhice caiu-me em cima

Envelhecias sem reparar
ou não querias pensar nisso
ou não consentias ao corpo esse vagar?

Agora aprendo à minha custa
sem a tua companhia
o que é envelhecer
Se calhar só através desta escrita
me vais ensinando
o que nunca aprendeste

Teresa Rita Lopes

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Pequenas Virtudes

Natalia Ginzburg nasceu em Palermo, em 1916.

No ensaio que dá o nome ao livro, descreve um modelo de educação assente nas grandes virtudes em detrimento das pequenas virtudes.

O que são as grandes virtudes?

Como distingui-las das pequenas?

“No que se refere à educação dos filhos, penso que lhes devem ser ensinadas não as pequenas virtudes, mas as grandes.

Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença pelo dinheiro;

não a prudência, mas a coragem e o desprezo do perigo;

não a astúcia, mas a franqueza e o amor da verdade;

não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação;

não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de conhecer.”

Neste ensaio de Natalia Ginzburg, surgem ainda reflexões que subscrevo e procuro alcançar na relação com a minha companheira de há 12 anos. Não sigo uma cartilha moralista, mas espero sempre que, pelo exemplo e pelos temas discutidos, a Beatriz interiorize a importância de agir com ética.

“A educação não é mais do que uma certa relação que estabelecemos entre nós e os nossos filhos, um certo clima em que florescem os sentimentos, os instintos, os pensamentos.”

“Hoje que o diálogo se tornou possível entre pais e filhos […] é necessário que nos revelemos, nesse diálogo, tal como somos: imperfeitos; confiantes em que eles, os nossos filhos, não se nos assemelhem, sejam mais fortes e melhores do que nós.

“[…] eles devem saber que não nos pertencem, mas que nós sim lhes pertencemos“.

“Talvez a única possibilidade real que temos de lhes prestarmos algum auxílio na busca de uma vocação, é termos nós próprios uma vocação, que conhecemos, amamos e servimos com paixão: porque o amor pela vida gera amor pela vida.”

Fotografias: do fotógrafo ganense, Prince Gyasi, IGNANT


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Ana Mushell

Todos os anos escolho a minha ilustradora de eleição, geralmente logo nos primeiros meses do ano.

As pessoas impacientes e dadas a arrebatamentos não têm a serenidade necessária para aguardarem por Dezembro para fazerem balanços ponderados…

A ilustradora espanhola Ana Mushell chegou até mim através da minha amiga Carmen.

São ilustrações que estão em perfeita sintonia com o frio introspectivo do Inverno.

Ilustrações que reflectem a melancolia de Janeiro e de um Fevereiro que se adivinha eriçado.

Se a melancolia, a solidão e o silêncio são vitais para a manutenção da minha sanidade mental, também é verdade que precisam de se contrabalançar com convívio (muito) selectivo, estímulo mental e paisagens em movimento.

Por enquanto, tem prevalecido a “tristeza hermosa”, acompanhada de Billie Holiday, um livro, abraços apertados e a salamandra.

Este é o Instagram imperdível de Ana Mushell.

Depois desta pausa da natureza, em que tudo acontece subterraneamente, anseio pelo iminente florescimento exterior!