“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Voos

Marinheiro

 

“Aquele pássaro que voa pela primeira vez

afasta-se do ninho olhando para trás

Com o dedo nos lábios

Chamei-vos

Inventei jogos de água

na copa das árvores

Tornei-te a mais bela das mulheres

tão bela que enrubescias nas tardes

A lua afasta-se de nós

e lança uma coroa sobre o pólo

Fiz correr rios

que nunca existiram

De um grito ergui uma montanha

e em volta dançámos uma nova dança

Cortei todas as nuvens do Este

E ensinei a cantar um pássaro de neve

Caminhemos sobre os meses desatados

Sou o velho marinheiro

que cose os horizontes cortados”

Vicente Huidobro, Chile, 1893-1948

 

A poesia ou faz-nos voar ou faz-nos contemplar os pássaros que voam.

Qualquer uma das opções é mais que perfeita.

Adeus!

Imagem de Nhung Le.


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Cru

Os poetas modernistas são de uma crueza impressionante;

uma crueza bem distante do peso da vida em que vivem, felizmente, a maior parte dos adolescentes.

Às vezes, sinto-me uma quebra-sonhos, às voltas com a dureza e o desencanto de poemas tão profundos, mas tão negros.

E lamento que, no correr do “programa a cumprir porque pode sair no Exame”, falte tempo para ler os poemas luminosos dos poetas modernistas.

mario-de-sa-carneiro

Não sendo o poema que se segue propriamente optimista, mostra um lado de Mário de Sá-Carneiro sarcático e bem-humorado.

E quem é que, depois dos 40 anos, não tem dias tão secos e esfarelados que sente na boca cada palavra desta “Serradura”?

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro, Paris, Setembro 1915

Um poema intenso mas incompreensível aos olhos de almas de 17 anos (ainda bem!).

É preciso viver para interpretar.

A crueza das palavras reflete a agudeza das emoções do poeta:

sete meses depois de ter escrito este poema, Mário de Sá-Carneiro deixa mesmo a sua vida num quarto de hotel em Paris, aos 26 anos.

Faz hoje 101 anos.


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Intimidade

 Pró Pudor

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.
                                                                                                                                                                                                                           .
Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.
                                                                                                                                                                                                                             .
Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente…
                                                                                                                                                                                                                                                         .
Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés…
                                                                                                                                                                                                                                                          .

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde                                                                                                                                                                           .

Numa sociedade tão sexualidade, precoce e assustadoramente sexualizada, pouco se fala de intimidade.

Intimidade requer tempo, dedicação e muita persistência;

palavras pouco em sintonia com a rapidez dos dias e com a efemeridade e superficialidade da maioria das nossas relações mundanas.

 

Intimidade é resmungar, saber que há dias maus… mas acreditar, no íntimo, que o companheirismo e o amor os superam.

É saber que estarmos todos os dias juntos é maravilhosamente tranquilizador, mas que também implica saturação e algumas lutas periódicas… com o outro e connosco.

Intimidade é dar razão aos mais velhos quando eles dizem que ” é preciso muita paciência” e “morder a língua” para não magoarmos o outro só porque estamos exaustos de um dia duro.

Intimidade é saber que a maior parte dos dias não é digna de um anúncio da Coca-Cola, com abraços ao pôr-do-sol, mas ainda assim não querer ir para outro lugar.

Às vezes, até é querer ir para outro lugar, mas essa vontade desaparecer passados 15 minutos.

Intimidade é conhecer o outro e reconhecermo-nos quando estamos com o outro;

é soltar gargalhadas no mesmo segundo;

sentir os silêncios serenos;

comunicar de todas as formas e “querer bem”… sempre.

Intimidade talvez seja, como diz Cesário, “cócegas nos pés”… e na alma.

Imagem Happily Grey.

P.S. A Lunna diz que intimidade é “cafoné na alma”!

É mesmo!

 

 

 


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Juntos

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia

mariana-miseravel-juntos

Imagem: Mariana, a Miserável.


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Receita

Votos de um 2017 cheio de Poesia, Paz e Força para resistir, para fazer acontecer, para abraçar desafios!

mala-gira-discos-crosley

Carlos Drummond de Andrade dá-nos a “Receita de Ano Novo”.

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

mala-gira-discos-crosley-aberta

Que o misterioso 2017 esconda músicas e poemas… e que nós o persigamos sem tréguas!

Imagens do blog (lindo!) We Blog You.

 

Weird

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hwtf frase

No meio de tantas rotinas, deveres, obrigações, expectativas, fica um sufoco, uma vontade de gritar Álvaro de Campos:

 ” […]

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia! […]”

LISBON REVISITED   (1923)

 

Com Álvaro de Campos na cabeça, mas com as obrigações profissionais e domésticas à espera, com as contas por pagar que me impedem de abrandar o ritmo…

Extravaso a rebeldia com um vestido extravagante, um piercing ou com batôn vermelho!

Ena! Ena!

Que insurrecta!


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O mar nos olhos

Just west design

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia

just west design Lake Louise

Algumas destas mulheres são minhas amigas.

Ontem, depois de um dia extenuante de trabalho, telefonei à Teresa, antes de abrir a porta de casa e entrar em modo “mãe!”.

Não sei bem como, o riso tomou conta da nossa conversa; rimo-nos até não aguentarmos com o lado mais caricato da vida!

Sempre a termos de ser tão sérios e responsáveis que até nos esquecemos como é bom rir: o riso desfaz angústias e reposiciona-nos! Fortalece os abdominais e deve queimar calorias. Eu pelo menos, senti-me bem mais leve quando entrei em casa.

 

Muito azul (e alguns sorrisos) da fotógrafa Stephanie Rudy no blog Just West.