“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Intimidade

 Pró Pudor

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.
                                                                                                                                                                                                                           .
Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.
                                                                                                                                                                                                                             .
Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente…
                                                                                                                                                                                                                                                         .
Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés…
                                                                                                                                                                                                                                                          .

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde                                                                                                                                                                           .

Numa sociedade tão sexualidade, precoce e assustadoramente sexualizada, pouco se fala de intimidade.

Intimidade requer tempo, dedicação e muita persistência;

palavras pouco em sintonia com a rapidez dos dias e com a efemeridade e superficialidade da maioria das nossas relações mundanas.

 

Intimidade é resmungar, saber que há dias maus… mas acreditar, no íntimo, que o companheirismo e o amor os superam.

É saber que estarmos todos os dias juntos é maravilhosamente tranquilizador, mas que também implica saturação e algumas lutas periódicas… com o outro e connosco.

Intimidade é dar razão aos mais velhos quando eles dizem que ” é preciso muita paciência” e “morder a língua” para não magoarmos o outro só porque estamos exaustos de um dia duro.

Intimidade é saber que a maior parte dos dias não é digna de um anúncio da Coca-Cola, com abraços ao pôr-do-sol, mas ainda assim não querer ir para outro lugar.

Às vezes, até é querer ir para outro lugar, mas essa vontade desaparecer passados 15 minutos.

Intimidade é conhecer o outro e reconhecermo-nos quando estamos com o outro;

é soltar gargalhadas no mesmo segundo;

sentir os silêncios serenos;

comunicar de todas as formas e “querer bem”… sempre.

Intimidade talvez seja, como diz Cesário, “cócegas nos pés”… e na alma.

Imagem Happily Grey.

P.S. A Lunna diz que intimidade é “cafoné na alma”!

É mesmo!

 

 

 


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Juntos

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia

mariana-miseravel-juntos

Imagem: Mariana, a Miserável.


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Receita

Votos de um 2017 cheio de Poesia, Paz e Força para resistir, para fazer acontecer, para abraçar desafios!

mala-gira-discos-crosley

Carlos Drummond de Andrade dá-nos a “Receita de Ano Novo”.

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

mala-gira-discos-crosley-aberta

Que o misterioso 2017 esconda músicas e poemas… e que nós o persigamos sem tréguas!

Imagens do blog (lindo!) We Blog You.

 

Weird

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hwtf frase

No meio de tantas rotinas, deveres, obrigações, expectativas, fica um sufoco, uma vontade de gritar Álvaro de Campos:

 ” […]

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia! […]”

LISBON REVISITED   (1923)

 

Com Álvaro de Campos na cabeça, mas com as obrigações profissionais e domésticas à espera, com as contas por pagar que me impedem de abrandar o ritmo…

Extravaso a rebeldia com um vestido extravagante, um piercing ou com batôn vermelho!

Ena! Ena!

Que insurrecta!


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O mar nos olhos

Just west design

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia

just west design Lake Louise

Algumas destas mulheres são minhas amigas.

Ontem, depois de um dia extenuante de trabalho, telefonei à Teresa, antes de abrir a porta de casa e entrar em modo “mãe!”.

Não sei bem como, o riso tomou conta da nossa conversa; rimo-nos até não aguentarmos com o lado mais caricato da vida!

Sempre a termos de ser tão sérios e responsáveis que até nos esquecemos como é bom rir: o riso desfaz angústias e reposiciona-nos! Fortalece os abdominais e deve queimar calorias. Eu pelo menos, senti-me bem mais leve quando entrei em casa.

 

Muito azul (e alguns sorrisos) da fotógrafa Stephanie Rudy no blog Just West.

 

 


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Pássaro azul

Nos dias malditos,

um poeta maldito:

O Pássaro Azul

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as p… e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?

[…]
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

Charles Bukowski, The Last Night of the Earth Poems, 1992.

Mouni Feddag

Porque há dias em que também não sei bem o que fazer ao meu pássaro azul…

Porque há dias em que até tenho medo que ele morra sufocado no meu peito…

Porque há dias em que receio que o matem se o ponho à solta…

Meu pobre pássaro azul!

(Hoje é o “blue monday” : o dia mais triste do ano – ciência ou superstição que não auguram nada de bom para a terceira segunda-feira do mês de Janeiro de cada ano)…

Imagem de Mouni Feddag.


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Sobre a Esperança

Começar o ano com Esperança:

Cada um de nós influencia o fluir do Mundo!

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, Os justos

Plantar bolbos nas cidades

Mary planta bolbos de frésias no canteiro da sua cidade… e conversa com o seu amigo de 4 patas.

17 apart
S
erá que o Amor e o Bem que sai do nosso coração fica para sempre no Mundo?

Será que pode salvá-lo?

Imagens do blog 17Apart


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Para te manteres vivo

A Lunna “não perdeu o hábito de escrever missivas”.
Envia-me todos os Domingos um poema.
Lucky me!!!
                                                                                                                      .
Mudança de Estação
                                                                                                                      .
para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado
                                                                                                                     .
deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento
                                                                                                                   .
passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória
                                                                                                                    .
luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctílucos
estendida nesta mudança de estação
                                                                                                                      .
al berto

Horto de Incêndio, 1997

.

mimicheers Manger                                                                                                                   .
Cheers!


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Canção Diurna do Viandante

As flores são as formas

completas das

estrelas que a luz solar devora

Flores Yasmin

 

Vagueio entre elas

urdindo a viagem diurna

da imperfeição

Flores Yasmin

 

A primavera aberta

nas margens incandescentes

alberga a

dor das formas

ilusão do estio primitivo

como se flores, de novo,

perfeitas nos cobrissem

Gastão Cruz

Flores Yasmin

Do site florido da Yasmin.

Quem gosta de flores tem de ver no Instagram.


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Uma pequenina luz

Lembrete:

Há dias felizes!

Muito!

Há dias em que acredito que vamos ter adultos maravilhosos.

-Qual é a tua “pequenina luz bruxuleante”?

 

Silêncio.

Caras sérias.

Dezasseis anos de vida em revista.

Olhos brilhantes.

-Amor.

-Fé.

-Amizade.

-Inspiração.

-Genialidade.

-Esperança.

-Felicidade.

-Deus.

-Emoção.

-Sonhos!

Chega a minha vez:

-Amor.

-Verticalidade.

-Liberdade!