“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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No outro

Imagino que, para um escritor, descrever um momento íntimo seja profundamente arriscado;

rapidamente a descrição se torna lamechas, vulgar, grotesca ou perpassa no leitor um sentimento de estranheza ou desconforto.

Li, há tempos, um artigo de Clara Ferreira Alves sobre José Rodrigues dos Santos.

É claro que é fácil bater no jornalista que escreve livros, mas havia algumas transcrições de momentos eróticos absolutamente arrepiantes.

Mia Couto alia a sensibilidade, o erotismo e a poesia de forma sublime:

“Um homem e uma mulher trocavam beijos e o seu amor desalojava a cidade inteira.
-Tens medo de fazer amor comigo?
-Tenho – respondeu ele.
-Por eu ser preta?
-Tu não és preta.
-Aqui, sou.
-Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
-Tens medo que eu esteja doente…
-Sei prevenir-me.
-É porquê, então?
-Tenho medo de não regressar, não regressar de ti.
Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.
-Que olhar é meu nos olhos teus?”

Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto

Não vou estragar a surpresa, mas a continuação da descrição deste encontro amoroso é tão intensa e delicada que nos faz corar.

São estas subtilezas que distinguem os escritores daqueles que escrevem livros…

 

Imagem Grace Upon Grace


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Sublimar

“Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera.

É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos.”

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

Oxalá consigamos, ao longo da vida, identificar o verdadeiro papel que nos cabe e que nos reconheçamos no desempenho dessa superação!

Votos de uma Páscoa Feliz!

 


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Universar

Mia Couto cria universos mágicos, com personagens maravilhosas, em que tudo pode acontecer, com a acutilância e sensibilidade expectável duma mente lúcida e poética.

Acabei O último Voo do Flamingo:

“O céu está em obras, só tem caído ferrugem lá das nuvens.”

“Quem voa depois da morte? É a folha da árvore.”

“As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (Provérbio africano)

“A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.” [A mãe] andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano.”

Um discurso poético mas cru, com um enredo policial que nos cativa, mas que nos leva à reflexão acerca da vida.

 

 

 


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Branquear

Iniciámos a leitura de uma nova coleção da nossa Biblioteca: “Histórias e Lendas Infantis”.

Os mitos e as grandes narrativas sempre nos fascinaram enquanto espécie e é muito bom observar e partilhar esse encantamento.

O que não está a deixar-me completamente em paz são os pormenores cruéis destas aventuras fundadoras do nosso espírito aventureiro, viajante e lutador.

Eu sei que para existir o Bem tem de aparecer o Mal e é, nesse contexto, que aparecem as peripécias sangrentas, mas…

Enfim, ando a branquear as histórias:

Robinson Crusoe não foi visitado por canibais que queriam comer o Sexta-feira; eram só selvagens mal intencionados que visitavam a ilha;

Rei Artur não trespassou dezenas de homens com a sua espada; só os vencia na luta e eles caiam;

Cíclope não mastigou os amigos de Ulisses nem a Schylla lhes arrancou a cabeça; só os mataram.

 

Coleção-historias-e-lendas-infantis

Estará correcto este branqueamento das histórias?

Andava nestas reflexões quando estoirou a polémica sobre v.h.m. e ainda fiquei mais desconfortável.

Sabem o que vou fazer?

Vou partir a redoma: está na altura de falar dos pormenores sangrentos, mas explicando-os e contextualizando-os.

Vai dar mais trabalho e vai ser mais duro mas de certeza que vão ser leituras e conversas muito mais enriquecedoras.

(Esta notícia também devia fazer estalar uma polémica, sobretudo a parte em que se refere que 14% das famílias dos alunos participantes no inquérito não têm livros em casa.)


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Acreditar

O meu Pai cursou História, compilou expressões do Portugal rural do século XX  e agora escreve contos ouvidos na sua infância.

Não é por acaso que escolheu o quadro “As Respigadoras” de Millet, para ilustrar a capa da sua recolha de contos…

as-respigadoras_by_millet

Li esta frase no seu livro de contos; falava assim de uma das suas personagens, Khadija, a tecedeira da aldeia.

Khadija tinha conhecimentos assentes “nas três religiões do Livro, a Torá, a Bíblia e o Alcorão, e no conhecimento de algumas práticas do culto dos deuses telúricos da antiga Lusitânea, […];

procurava nesta diversidade divina encontrar a cura para as dificuldades do quotidiano.

Em consciência acreditava que todos os seus deuses flutuavam conjuntamente […]”.

“Khadija acreditava piamente que, pese embora todas as calamidades, como as guerras e outros fenómenos que se abateram sobre a humanidade e continuarão a acontecer, o mundo está condenado a sobreviver, para sempre, somente porque o homem não tem capacidade para o destruir;

Deus ou Alá nunca o permitiriam.”

Como o  nosso mundo precisa de Khadijas!


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Gelados Caseiros

Este é o meu livro de referência, desde que entrámos no maravilhoso (e perigoso) mundo dos gelados caseiros.

Gelados Caseiros capa

É da Linda Lomelino, a elegante autora do blog Call me cupcake.

linda lomelino

As fotografias seguem o registo do blog: sóbrias mas cativantes, e as receitas estão a ser um desafio viciante: apetece começar pela primeira e seguir a ordem do delírio do palato.

Gelado de chocolate: check!

Gelado de chocolate: check!

Gelado de morango: check!

Gelado de morango: check!

Sorvete de mirtilo e iogurte: na lista!

Sorvete de mirtilo e iogurte: check!

Tenho tentado alternar um gelado com um sorvete, mas aqui em casa os gelados são muito mais requisitados.

Os bolos são muito atraentes e vamos experimentar, claro.

bolo gelado linda lomelino

Estou a estabelecer uma relação de amor-ódio com este livro: apetecia-me responder ao desafio e experimentar todos os gelados;

por outro lado, a minha balança anda implacável.


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Gratidão

Li no blog Eu não sou os outros uma ideia que pretendo concretizar com a Beatriz: construir um caderno de gratidão que reúna os melhores momentos da semana.

Focar o lado positivo da vida é um treino: como se sabe, nem sempre as pessoas mais felizes são aquelas que têm vidas mais fáceis.

E eu quero que a Beatriz seja Feliz!

Obrigado a todos capa

O livro Obrigado a todos que trouxemos da Biblioteca é um bom início para o exercício Be Positive!

Obrigada a todos p1

Para além de ter a ideia construtiva e verdadeira de que aprendemos com todas as pessoas que nos rodeiam!

 

Obrigada a todos p2

Obrigado a todos p3

Obrigada a todos p4

Obrigado a todos p5

Obrigado a todos p6

Salienta, de uma forma acessível, que a oportunidade de aprender é a maior bênção que devemos agradecer todos os dias!

Obrigado a todos p7

Escrito por Isabel Minhós Martins.

Ilustrado por Bernardo Carvalho.

Editado por Planeta Tangerina.