“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Pássaros na cabeça

Mais um livro da Biblioteca de Estremoz.

Como muitos livros infantis, este é só aparentemente simples, permitido uma leitura mais superficial e outra bem mais complexa.

A mais profunda vou abordando aos poucos com a Beatriz.

Temos um rei, muito sensato e tranquilo com as suas escolhas.


 

Um rei que gosta de passarinhos e de refletir sobre o seu reino enquanto os alimenta e mima.

E temos três ministros ambiciosos, megalómanos, insensatos e que querem ficar para a história custe o que/ a quem custar (onde é que já vimos estes três?).

Três ministros que traçam um plano maquiavélico para enganarem o seu rei.

Ministros que expulsam todos os passarinhos do reino, os verdadeiros conselheiros do soberano.

Três ministros que merecem um grande castigo pela sua crueldade e egoísmo.

Um livro com uma mensagem muito lúcida:

Seremos todos mais inteligentes e felizes com tempo para introspeção e próximos da natureza!

Escrito pelo escritor cubano Joel Franz Rosell e ilustrado por Marta Torrão.

Da editora do coração Kalandraka!

 

 

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O Médico do Mar

A Beatriz anda muito curiosa acerca da vida animal, sobretudo a marinha.

Eu também tenho aprendido muito: vocês sabiam que os polvos têm 3 corações e as formigas 2 estômagos?

Eu não!

Para além do saber enciclopédico, encontrámos este livro sobre um veterinário intrépido que todos os dias salva os animais marinhos.

Dos mais inofensivos.

Aos mais temerários.

Até que um dia é ele que precisa de ser salvo.

De forma muito descontraída e divertida, este livro ensina acerca da importância dos comportamentos em cadeia, no mar e na terra: o bem atrai e provoca o bem!

Escrito e ilustrado por Leo Timmers e brevemente adaptado para televisão.


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Enrugar

A propósito de envelhecer, este é um dos parágrafos mais ternos da literatura portuguesa.

Sobre ser velho e belo.

Sobre o Amor.

“Desce Baltasar ao vale, vai para casa, é certo que o trabalho ainda não despegou na obra,

mas, vindo ele tão esforçadamente de longe, desde Santo António do Tojal em um só dia,

não esqueçamos, tem direito a recolher mais cedo, depois de descangados e pensados os bois.

O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no beiral, sai e entra,

vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos ficar assim a eternidade,

ou metade dela, o que já não seria mau. Mas, de repente, estava e já não está, mesmo agora a vi,

onde é que se meteu, e se temos à mão um espelho, Jesus, como o tempo passou, como eu me tornei

velho, ainda ontem era a flor do bairro, e hoje nem bairro nem flor. Baltasar não tem espelhos,

a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila,

e eles são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltasar, tens a testa carregada de rugas,

Baltasar, tens encorreado o pescoço, Baltasar, já te descaem os ombros, Baltasar,

nem pareces o mesmo homem, Bal­tasar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos,

porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo,

o soldado a quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê,

apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira,

mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto,

escondido de nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem,

abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escân­dalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um

ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos,

talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventura serão estes os únicos seres

humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os

nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos.”

Memorial do Convento, José Saramago

Saramago e Pilar

♥ Vale a pena ver a peça de teatro da companhia Éter!

 

 


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A minha professora é um monstro

O nosso ano lectivo inicia-se com mais adrenalina do que o habitual: a nossa bebé vai para a escola primária!

Que nervos!

Uma das leituras de Verão abordou a incontornável temática:

-Será que eu vou gostar da professora?

-Será que a professora vai gostar de mim?

O Fred não gostava da professora… e a D. Lurdes também não simpatizava especialmente com o Fred.

Até que, num tranquilo Sábado de manhã, um encontro nada desejado aconteceu no parque da cidade.

Um silêncio incómodo prolongou-se… interrompido por um ventinho benfazejo.

Foi a oportunidade de que precisavam para perceberem que, se olhassem com mais atenção um para o outro, iriam encontrar pontos comuns, daqueles que retiram a  “monstruosidade” às pessoas com quem não simpatizamos (bem, a algumas…).

No fundo, uma lição de sã convivência para crianças e adultos.

De Peter Brown, filho, neto e sobrinho de professores.

Da editora mais perigosa que conheço Orfeu Negro  

(Se visitarem o site, percebem o que digo: tudo irresistível!)


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No outro

Imagino que, para um escritor, descrever um momento íntimo seja profundamente arriscado;

rapidamente a descrição se torna lamechas, vulgar, grotesca ou perpassa no leitor um sentimento de estranheza ou desconforto.

Li, há tempos, um artigo de Clara Ferreira Alves sobre José Rodrigues dos Santos.

É claro que é fácil bater no jornalista que escreve livros, mas havia algumas transcrições de momentos eróticos absolutamente arrepiantes.

Mia Couto alia a sensibilidade, o erotismo e a poesia de forma sublime:

“Um homem e uma mulher trocavam beijos e o seu amor desalojava a cidade inteira.
-Tens medo de fazer amor comigo?
-Tenho – respondeu ele.
-Por eu ser preta?
-Tu não és preta.
-Aqui, sou.
-Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
-Tens medo que eu esteja doente…
-Sei prevenir-me.
-É porquê, então?
-Tenho medo de não regressar, não regressar de ti.
Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.
-Que olhar é meu nos olhos teus?”

Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto

Não vou estragar a surpresa, mas a continuação da descrição deste encontro amoroso é tão intensa e delicada que nos faz corar.

São estas subtilezas que distinguem os escritores daqueles que escrevem livros…

 

Imagem Grace Upon Grace


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Sublimar

“Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera.

É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos.”

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

Oxalá consigamos, ao longo da vida, identificar o verdadeiro papel que nos cabe e que nos reconheçamos no desempenho dessa superação!

Votos de uma Páscoa Feliz!

 


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Universar

Mia Couto cria universos mágicos, com personagens maravilhosas, em que tudo pode acontecer, com a acutilância e sensibilidade expectável duma mente lúcida e poética.

Acabei O último Voo do Flamingo:

“O céu está em obras, só tem caído ferrugem lá das nuvens.”

“Quem voa depois da morte? É a folha da árvore.”

“As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (Provérbio africano)

“A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.” [A mãe] andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano.”

Um discurso poético mas cru, com um enredo policial que nos cativa, mas que nos leva à reflexão acerca da vida.