“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


Deixe um comentário

Rejeições

Redmond Barry é meu amigo, tem 40 anos, é bonito, culto e inteligente.

Tem tudo para se sentir absolutamente afortunado, mas é possível ser lúcido e feliz?

Fernando Pessoa já há muito deu resposta a essa questão!

Portanto, resta-nos reflectir.

Chegou o momento de dar espaço à perspectiva masculina, neste blog.

O que tens a dizer das tão assombrosas/espinhosas relações românticas?

Rejeições

Certamente que uma das piores emoções pelas quais um ser humano passa advém de uma qualquer rejeição e todos nós já fomos sujeitos, em maior ou menor medida, a várias. Seja numa entrevista de emprego, seja por parte de um grupo de amigos ou devido a um amor não correspondido, quando somos rejeitados um sentimento que pode ir da tristeza à revolta invade-nos o coração e, consoante o caso, pode durar uns minutos, umas horas, uns quantos dias ou até algumas semanas.

Muito pior, todavia, é viver numa constante rejeição que, pelo que me tenho dado conta, é algo que atinge muitos casais. A partir de determinado momento, por variadíssimas causas que me ultrapassam, embora por vezes também sem qualquer motivo aparente, um dos membros do casal desliga-se progressivamente do outro. Deixa de querer ter um momento a sós, de passar ocasionalmente um pôr-de-sol abraçado como se de um casal de adolescentes se tratasse e, claro, deixa inevitavelmente de ter qualquer relação sexual ou tem-nas com uma frequência residual e/ou por achar que deve cumprir uma obrigação. Não faço ideia de qual será a quantidade de casais afetados por este problema, pois os estudos sobre esta matéria sofrem com uma grande variação já que se baseiam em questionários anónimos de autopreenchimento. Ainda assim, estima-se que entre a 10% a 20% das relações de longo prazo um dos membros é rejeitado sistematicamente.

               É para mim muito difícil compreender as motivações de quem rejeita, com exceção de quando se trata de impor algum castigo, vingança sobre o parceiro ou um inegável problema de saúde. Se quem rejeita tivesse um mínimo vislumbre do que causa na outra pessoa, rapidamente tomaria uma de duas ações possíveis. No caso de pretender manter uma relação saudável procurava, por todos os meios e da forma mais célere possível, resolver o problema. A outra opção era libertar o parceiro (ou parceira, pois têm-me chegado vários relatos no feminino) de uma relação que progressivamente se tornará, usando a terminologia woke, tóxica. Se uma rejeição é difícil de digerir, quando é constante toma proporções cumulativas que desencadeiam um conjunto de sentimentos e ações extremamente negativos. A perda de autoestima é inevitável e pode atingir dimensões danosas a um ponto obsessivo, sobretudo porque estes problemas surgem tendencialmente numa fase mais avançada da vida quando os primeiros sinais de envelhecimento físico surgem – perda de cabelo, mudança na cor do cabelo, aumento de peso, perda da dentição, etc. Segue-se uma crescente revolta interna contra quem nos rejeita, correndo-se o risco de se transformar uma pessoa em tempos amada numa entidade abjeta e odiada. Estes sentimentos, todavia, não se circunscrevem ao seio familiar e o rejeitado começa inclusivamente a ter atitudes que não lhe são inatas em todos os meios sociais em que se move.

               Então porque não aceitar, sem dramas, que o amor terminou? É verdade que há sempre muitos encargos conjuntos que, entretanto, se adquiriram – bens móveis e imóveis, filhos, amigos e familiares para gerir –, mas até que ponto se deve arrastar uma situação que leva a uma autodestruição anunciada?   Haverá alguma solução disponível? Aconselho a audição desta entrevista que me parece muito certeira no diagnóstico e desfecho deste tipo de situações.

Rio Ponsul, seco, árido e estéril


Deixe um comentário

3 Gerações

Li algures que, para mudar um padrão social, são necessárias 3 gerações.

Como ser humano, mulher e mãe de uma rapariga, espero que os trilhos percorridos jamais retrocedam.

Felizmente, eu não posso comparar a minha adolescência com a da minha mãe ou com a da minha avó que nasceu em 1925: duas mulheres fortes, mas condicionadas pelo que os outros esperavam delas.

A minha filha está ainda mais afastada desse paradigma exigido pela família e pela sociedade; está também distante daquele que orientava as miúdas que cresceram nos anos 80 numa pequena cidade junto ao mar.

Como isso me deixa feliz!

Hoje, já adulta, devo muito à minha filha pré adolescente.

Foi com ela que perdi totalmente o medo de palavras como menstruação, vulva/vagina, pénis, testículos, orgasmo ou relações sexuais.

Um dos projetos dela para este ano letivo é fazer parte da Associação de Estudantes da escola e lutar para que se disponibilizem recolectores menstruais gratuitos nas casas de banho. Está muito perturbada com a pobreza menstrual que ainda existe no nosso país. Eu também estou, porque descobri há poucos meses que há várias crianças, em Estremoz, que não têm casa de banho!

Eu passei metade da minha vida sem conhecer a total dimensão do meu clitóris e sem dintinguir vulva e vagina. A minha filha está perfeitamente familiarizada com o seu órgão reprodutor.

Eu ainda sofri ecos de uma tradição patriarcal que insinuava uma superioridade masculina, não só física, mas também intelectual e de usufruto de direitos.

A minha filha nem concebe tal absurdo.

Eu vi/vejo a minha vida sexual perscrutada e cresci com alertas em relação ao que “parece mal”.

Se tudo correr dentro do previsto, a minha filha há-de viver a sua sexualidade como bem lhe der na gana!

Pouco antes de eu nascer, a NASA lançou uma cápsula para o espaço com informação sobre a vida na Terra. O homem foi com pénis e testículos; a mulher embarcou sem vulva.

Parece que a primeira versão do desenho era demasiado gráfica. Podia assustar os marcianos, uma vez que incomodava, sem dúvida, os terráqueos.

Há ainda um percurso, mas penso que as questões que atormentaram os adolescentes do passado já não atormentarão os adolescentes do futuro. Sou optimista.

Receio que demasiado optimista, porque vivemos na era da harmonização facial, corporal e genital.

Todas estas imagens são de um livro muito bem humorado mas muito sério da sueca Liv Stromquist, O Fruto Proibido. Leitura obrigatória!


Deixe um comentário

Levezas

O Alentejo tem estado insuportavelmente quente e, como sempre, fugimos, em Agosto, para o mar materno.

Levo um T.P.C.: treinar este up de estilo com as dezenas de lenços e écharpes que acumulei ao longo dos anos e que já não uso ao pescoço.

E alguns vestidos leves na mala.

Tenho à minha espera, na marginal figueirense, uma bicicleta oferecida pelo meu Pai, mas palpita-me que só no Pinterest se consegue este ar fresco e elegante… Lembrete: usar um vestido ou saia pretos.

Eu sujei o meu vestido de linho com óleo, na primeira tentativa glamorosa.

De resto, é apanhar sol e mar, brindar às férias e abusar das minhas escolhas de estações passadas.

Encurtar a saia, enquanto não sou perscrutada por duas dezenas de adolescentes, também é uma opção..

Como não sou perfeita, prevariquei e comprei estas sandálias, com a condição de calcorrear novos caminhos.

Estas são a prevaricação do ano passado!

Para me redimir, vou tentar recuperar os velhos coletes para a rentrée!

Boas Férias!

Redmond Barry promete voltar a desassossegar-nos em Setembro!

Mas vamos embarcar em 30 dias de Leveza!


2 comentários

Principiantes

Redmond Barry foi convidado a refletir acerca das relações amorosas:

“[…] os filhos monopolizam os cuidados e carinhos maternos a tal ponto que, ao cabo de alguns anos, quase não haverá espaço para [o marido] no coração da mulher”. […]

[regista-se] afastamento emocional entre marido e mulher após o nascimento dos respetivos filhos.

[Actualmente] À classe masculina, nos relacionamentos heterossexuais, cabem as mesmas queixas efetuadas observadas há quase cento e vinte anos pelo lavrador de Elvas.” 

Houve muitos comentários públicos e privados às palavras de Redmond Barry, maioritariamente masculinos. Apercebi-me de que ainda vivemos numa cultura que limita a verbalização do sofrimento emocional masculino. “Os homens não choram” é a frase mais destruidora da saúde mental: as lágrimas que se engolem afogam-nos, mais cedo ou mais tarde.

Na verdade, a invulnerabilidade e o perfeccionismo ampliados pelas redes sociais e por uma cultura de sucesso ostensivo cilindra mulheres e homens.

A única solução que me parece viável para mitigar os afastamentos amorosos (os que podem ser mitigados…) talvez passe por negarmos essa superficialidade e chorarmos juntos, quando estamos angustiados ou desiludidos com o rumo da relação. De preferência, sem acusações, sem subterfúgios, sem belicismos e sem amarguras.

É quase impossível, quando somos só humanos.

Não considero que a culpa do afastamento esteja no masculino ou no feminino: a vida a dois a longo prazo nos moldes convencionais não é para todos; a vida a dois a longo prazo, com filhos, talvez seja só para quem tenha uma capacidade de abnegação extraordinária… e uma enorme resistência ao tédio.

Concordo com o diagnóstico apontado por Redmond Barry, mas não coloco o ónus na mulher.

Nos primeiros meses/anos com bebés em casa, há um vendaval de hormonas, de tarefas, de reajustes, de solicitações e de amor rupestre que nos abalroa. A prioridade é sobreviver à exaustão. Se tudo correr bem, é um trabalho de equipa de dois esfarrapadas: a mulher está completamente assoberbada e o homem está a tentar perceber o seu lugar naquele desalinho global que não sabe/não consegue/não quer organizar.

Talvez a mulher ande mais distraída da relação romântica durante os primeiros meses, mas a frustração pela falta de humor, cumplicidade e erotismo também chegará, indecorosamente. É-nos ainda difícil verbalizar essas contrariedades, sobretudo depois de sermos mãe. Esse será um bom tema para outra conversa, Redmond Berry!

Os nossos progenitores repetiram os moldes do passado: as nossas mães lavaram incontáveis fraldas de pano, no intervalo dos exigentes horários de trabalho, e os nossos pais giraram entre a profissão e a mesa da cozinha… apenas para jantar.

Nós quisemos testar novas fórmulas e cometemos muitos erros, erros novos e inéditos.

Acredito que estamos numa época de viragem de modelo familiar, necessariamente tumultuosa: os homens tornaram-se plenamente presentes na educação dos filhos, mas não tanto na vida doméstica que continua a recair de forma pouco equitativa e asfixiante sobre a mulher.

Quanto a mim, quis ser o que as mulheres que me antecederam não ambicionaram: uma mãe mais do que incrível, absolutamente extraordinária, uma profissional incansável, empreendedora, criadora de conteúdos inspiradores, decoradora boho, no meio do ciclone que é mudar de casa duas vezes e estabilizar-me numa nova cidade. Tudo isto antes da Beatriz fazer 3 anos!

Claro que esta imagem utópica da mãe do novo milénio é esquizofrénica: foram 3 anos de que mal me lembro.

Acabei por me perder e colocar em coma a Ana que eu conhecia.

Acredito que acontece com muitas mulheres esta luta interna entre a realidade e uma versão de si próprias fantasiosamente moderna e que se revela auto e heterodestruidora.

Foi o que me aconteceu, aos 35 anos, quando acrescentei uma filha a uma relação de 10 anos, com o melhor pai que poderia ter encontrado.

Demorei quase uma década a estabilizar-me. Ainda estou em processo, mas muito mais consciente do que me cilindra.

Aprendi a confiar e a delegar nos outros, mesmo sabendo que, muitas vezes, eu faço de forma diferente e, provavelmente, melhor. Também me ajudou morder a língua quando estava para sair uma crítica acerca da fralda mal colocada ou do pijama cheio de nódoas que saiu, alegremente, à rua.

Há, no entanto, casos graves de falta de comunicação e de atenção em que cada amante se fecha e acumula mágoas que minam a concha comum até não sobrar nada.

E há o que, do meu ponto de vista, não tem solução: a total desilusão relativamente ao companheiro que não corresponde ao pai que nós queremos para o nosso filho. Julgo que essa é mesmo a dor maior e o afastamento, neste caso, é irreversível.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Jovem Poeta confidencia-nos:

“As exigências que o difícil trabalho do amor coloca ao nosso desenvolvimento são maiores do que aquilo que é natural, e nós, principiantes, não estamos à sua altura.”


3 comentários

Persistências e Afastamentos

Redmond Barry é meu amigo, tem 40 anos, é bonito, culto e inteligente.

Tem tudo para se sentir absolutamente afortunado, mas é possível ser lúcido e feliz?

Fernando Pessoa já há muito deu resposta a essa questão!

Portanto, resta-nos reflectir.

Chegou o momento de dar espaço à perspectiva masculina, neste blog.

O que tens a dizer das tão assombrosas/espinhosas relações românticas?

Persistências e Afastamentos nas Relações de Longo Prazo

No final da década de 1960, José Cutileiro apresentava a sua tese de Doutoramento na Universidade de Oxford, posteriormente editada no final da década seguinte com o título Ricos e Pobres no Alentejo. Tratou-se de um estudo de antropologia social sobre a sociedade rural portuguesa do Sul com base, sobretudo, no trabalho de campo que o autor realizou em Monsaraz nos anos de 1965 a 1967. Ao analisar a vida conjugal, Cutileiro identificou o afastamento do casal à medida que “(…) os filhos monopolizam os cuidados e carinhos maternos a tal ponto que, ao cabo de alguns anos, quase não haverá espaço para [o marido] no coração da mulher”. Esta observação, todavia, não constituiu qualquer novidade, pois escrevendo igualmente sobre os costumes alentejanos, mas fazendo-o mais de 6 décadas antes, José da Silva Picão, lavrador da região de Elvas, notou precisamente o mesmo comportamento que acabou por imortalizar no clássico Através dos Campos.

               É assaz curioso verificar que os mais de 60 anos que separam os dois textos, no já aceleradíssimo século XX, não parecem ter feito qualquer diferença, pois tanto o cientista social recentemente falecido, como o aclamado autodidata que nunca passara da instrução primária, fizeram questão em registar o afastamento emocional entre marido e mulher após o nascimento dos respetivos filhos. Entre Picão e Cutileiro vai, muito mais do que a distância física entre Santa Eulália e Monsaraz, um oceano de diferença tecnológica entre a junta de bois e o trator; o comboio e o avião a jato; a oralidade dos contos tradicionais e a série Bonanza que podia ser televisionada nas casas mais abastadas ou no aparelho da Casa do Povo. No entanto, na intimidade tudo parece tremendamente igual.

“Separação” – 1896 – Edvard Munch

               E agora, cujo arco temporal que nos separa de Cutileiro é sensivelmente o mesmo que entre os dois autores atrás mencionados, estarão as coisas neste aspeto diferentes? Os ecos que me chegam parecem-me indicar que não. À classe masculina, nos relacionamentos heterossexuais, cabem as mesmas queixas efetuadas observadas há quase cento e vinte anos pelo lavrador de Elvas. Não obstante a falta de cientificidade das observações que registo – não serão mais do que uma vintena no funil que é o meu meio social –, surge-me a dúvida se tal é devido a questão biológica, a uma atitude social que teima em persistir ou, na opção aparentemente mais sensata, a um pouco de ambos. Quem perde são os maridos, as mulheres e as relações de longo prazo que parecem estar condenadas ao insucesso de uma separação ou a um perpétuo comodismo esmagado pelos compromissos entretanto assumidos pelo casal. Talvez, na realidade, as relações de longo prazo, muitas vezes materializadas no casamento, sejam uma tremenda fraude e não correspondam a mais do que uma estratégia económico-social adaptada às frágeis economias pré-industriais, mas totalmente desadaptadas à realidade pós-industrial, explicando-se assim a projeção que aponta para mais de 90 divórcios por cada 100 casamentos no ano de 2020 em Portugal.

Polémico ou unânime?

You Rock, Redmond Barry!!


2 comentários

Rinocerontites

A forma furiosa como somos impelidos a viver torna-nos infelizes.

A aceleração constante do corpo e da mente provoca a autossabotagem individual e coletiva.

Quando estamos ansiosos e irascíveis, queremos um alívio rápido, quer este seja racional ou irracional. Ficamos incapazes de escolher e, geralmente, o consolo é arriscado e compulsivo: comida, compras, sexo, álcool, agressividade, programas televisivos acéfalos, … Vale tudo desde que anestesie.

Autossabotamos os sonhos e a vida até nos esgotarmos ou cairmos no irremediável.

A partir daí, estamos incapazes de organizar a casa e o mundo, ficamos socialmente à deriva.

Procuramos um culpado para a angústia, mal-estar, miséria ou frustração do fim do dia.

Tem de haver culpados para o que estamos a sentir: são os ricos, são os pobres, os que roubam, os que pedem, os de pele clara, os de pele escura, os que nos amam, os que nos odeiam, os famosos ou os desconhecidos, os próximos ou os distantes, … alguém tem de ser o responsável.

Esta subjugação ao relógio e ao metal, tão contranatura e insana, combate-se com rebeldia: pegar num livro é como carregar no botão de pausa e afrontar a engrenagem.

Se não accionarmos a pausa, misturar-nos-emos na massa ocupada, doente e ignorante: seremos facilmente dominados, enquanto corrermos como formigas ao sol.

Pessoas assim tornam-se autómatos e presas fáceis de rinocerontites: meras máquina que marcham atrás da mais ignóbil trombeta.

Eugène Ionesco, numa conferência realizada em 1961, esclarece:

“Pois estas pessoas atarefadas, ansiosas, que perseguem um objectivo que não é um objectivo humano ou que é apenas uma miragem, de repente podem, ao ouvir o som de uma qualquer trombeta, ou o chamamento de algum louco ou demónio, deixar-se arrastar por um fanatismo delirante, por uma paixão violenta colectiva, por uma neurose popular.

As mais variadas rinocerontites, de direita e de esquerda, as mais variadas, constituem ameaças que pesam sobre a humanidade que não tem tempo de reflectir, de recuperar os sentidos ou o juízo.”

Texto retirado do livro: A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine.

Imagem: IGNANT.


Deixe um comentário

Distinto

Tomei consciência, há pouco tempo, de que a lei que descriminalizou a homossexualidade é de 1982!

“Durante quase 100 anos, o Código Penal português, através dos artigos 70º e 71º, entendia a homossexualidade como “prática de vícios contra a natureza” e a punição passava, entre outras, pelo “internamento em manicómio criminal” e pela “interdição do exercício de profissão”.

Durante a ditadura em Portugal, a sociedade idealizada pelo regime de Salazar, excluía todas as pessoas que constituíssem um “perigo moral”, entre as quais os homossexuais. Estas pessoas, acusadas de conduta imoral ou vadiagem, eram internadas por longos períodos em estabelecimentos específicos, com vista a uma “reeducação”.

Com a revisão do Código Penal em 1982, a homossexualidade é descriminalizada em Portugal, constituindo uma viragem na lei.”

Definitivamente, não percebo este medo de quem é diferente.

Compreendo o eventual espanto ou estranheza; percebo que nos aproximemos daqueles com quem temos mais pontos em comum, mas não aceito esta vontade de dominar e eliminar o outro.

Nuccio Ordine orienta-nos :

“Só o conhecimento de que estamos destinados a viver na incerteza, só a humildade de nos considerarmos seres falíveis, só a consciência de que estamos expostos ao risco do erro podem permitir-nos conceber um autêntico encontro com os outros, com aqueles que pensam de maneira diferente de nós.

Por estas razões, a pluralidade das opiniões, das línguas, das religiões, das culturas, dos povos, deve ser considerada uma riqueza imensa da humanidade e não um perigoso obstáculo.”

O mesmo nos diz Juan Ramón Jiménez, com a intensidade de Asier Etxeandia:

Distinto

Lo querían matar
los iguales,
porque era distinto.

Si veis un pájaro distinto,
tiradlo;
si veis un monte distinto,
caedlo;
si veis un camino distinto,
cortadlo;
si veis una rosa distinta,
deshojadla;
si veis un río distinto,
cegadlo…
si veis un hombre distinto,
matadlo.

¿Y el sol y la luna
dando en lo distinto?
Altura, olor, largor, frescura, cantar, vivir
distinto
de lo distinto;
lo que seas, que eres
distinto
(monte, camino, rosa, río, pájaro, hombre):
si te descubren los iguales,
huye a mí,
ven a mi ser, mi frente, mi corazón distinto.


Una Colina Meridiana (1942-1950)

Primeira citação: daqui.

Segunda citação: daqui.

Imagem: daqui.


Deixe um comentário

Considerações inúteis sobre o Amor

“Abandonar a pretensão da posse, saber conviver com o risco da perda, significa aceitar a fragilidade e a precaridade do amor. Significa renunciar à ilusão de uma garantia de indissolubilidade da ligação amorosa, tendo presente que as relações humanas, com as limitações e as imperfeições que as caracterizam, não podem prescindir da opacidade, das zonas de sombra, da incerteza. É por isso que, quando se procura a total transparência e a verdade absoluta no amor, se acaba por destruí-lo, se acaba por sufocá-lo num abraço mortal.”

” A posse, em todo o caso, configura-se como como um dos piores inimigos do amor. Encerrar o amor num círculo, condenando-o a viver numa prisão eterna, não servirá para protegê-lo das mutações e das metamorfoses que caracterizam as coisas humanas.”

Nuccio Ordine, no manifesto A Utilidade do Inútil, tece estas reflexões lúcidas sobre as relações românticas.

Nota: Como é óbvio, estas e outras considerações muito sábias sobre o Amor são completamente inúteis quando nos apaixonamos. Como toda a gente sabe, se esse fosse um estado de alguma razoabilidade e sensatez, não se chamaria paixão…

Paixão deriva do latim passio, -onis: sofrimento.

Fotografias: IGNANT.


1 Comentário

Pessoas infelizes

Eugène Ionesco, numa conferência realizada em 1961, faz um retrato dos nossos dias:

“Vejam como as pessoas correm atarefadas pelas ruas.

Não olham para a direita nem para a esquerda, preocupadas, de olhos fixos no chão, como cães.

Caminham a direito, mas sempre sem olhar em frente, pois seguem maquinalmente um percurso já bem conhecido.

Em todas as cidades do mundo, é assim que acontece.

O homem moderno, universal, é o homem atarefado, que não tem tempo, que é escravo da necessidade, que não compreende que uma coisa possa não ser útil; que não compreende sequer que, na realidade, o útil pode ser um peso inútil, opressivo.

Se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte;

e um país onde não se compreende a arte é um país de escravos ou autómatos, um país de pessoas infelizes, pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito;

onde não há humorismo, não há riso, há raiva e ódio.”

Sessenta anos depois, vários choques tecnológicos e vias rápidas digitais/de betão mais tarde, e assim continuamos… não só nas grandes cidades, mas também nas pequenas cidades do interior. Basta uma distração, uma fresta aberta no autopoliciamento e embarco com facilidade na caderneta do humano atarefado.

Por ansiedade ou frenesim natural, sou permeável à alta voltagem das urgências pessoais, familiares e profissionais do dia; por autoexigência excessiva planeio 1000 tarefas impossíveis de concretizar num só dia. Resultado? Fico exausta e frustrada.

Devido à minha cordialidade natural, percebi que os outros esperam de mim um autoajuste inesgotável e só se surpreendem quando não cumpro. Também por isso, tive de aprender a observar-me e a desacelerar aos primeiros sinais de stress descontrolado.

Sei que o percurso ainda é longo. Mas imperioso.

Para além de não querer adoecer com excesso de cortisol, nem consigo conceber a ideia de me tornar um autómato e, com as opressões quotidianas, não contemplar o céu, a Primavera, a arte e as pessoas bonitas!

As cidades das máquinas: IGNANT.

Texto de Eugène Ionesco: daqui.


1 Comentário

Humanitas

Com a idade a avançar, também surgem boas mudanças: encontro em mim a constância e as referências que me permitem confrontar-me com o ensaio, género que nunca me cativou enquanto literatura prazerosa.

A Utilidade do Inútil é um manifesto do filósofo italiano Nuccio Ordine que nos interpela nestes tempos de decadência e escuridão. É precisamente quando a crise se agudiza que o sentido prático domina e só se salva o que é útil, ou seja, o que produz lucro.

Ordine chama a atenção para o perigo de construirmos um mundo que anseia correr, mesmo que não saiba para onde. Para contrariar esta questão, este sentido único e cego na direcção do fogo do dinheiro, o filósofo evidencia a importância de todos os filósofos, cientistas e escritores que, com os seus pensamentos e descobertas inúteis, foram dando algum sentido ao caos.

Neste excerto do livro, cita-se Kakuzo Okakura que explica como é o inútil que nos torna humanos; de facto, se pensarmos bem, nenhum outro animal coloca na sua toca um objecto decorativo ou oferece ao seu parceiro um adorno estético.

“O japonês Kakuzo Okakura atribui à descoberta do inútil o salto que assinalou a passagem da feritas à humanitas. No seu livro A Cerimónia do Chá (1906), num apaixonado capítulo dedicado às flores, alvitra que a poesia amorosa teve origem no mesmo momento que nasceu o amor pelas flores:

O homem primordial superou a sua condição de bruto ao oferecer a primeira grinalda à sua rapariga.

Elevando-se acima das necessidades naturais primitivas, tornou-se humano. Quando percebeu o uso que se podia fazer do inútil, o homem fez a sua entrada no reino da arte“.

Fotografia: IGNANT.