“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Curadoria íntima

A minha pré adolescente borbulha autonomia e determinação, excepto à noite, antes de dormir, altura em que se permite procurar a proteção e a cumplicidade da Mãe.

Andamos há semanas acompanhadas pelo Ben e pela Rose, em grandes viagens por Minnesota, New Jersey e, por fim, numa grande aventura em Nova Iorque.

Temos viajado por espaços físicos e mentais de dois adolescentes determinados em encontrar-se a si próprios, quando os adultos mais próximos lhes falharam.

Valem-lhes outras pessoas e outros mundos.

Por esses motivos, este é um livro fantasioso, intenso mas também duro.

Rose
Desejo mais profundo de Rose

Aprendemos que, em 1869, Nova Yorque não tinha qualquer museu, ao contrário do que acontecia nas capitais da Europa ou mesmo em Filadélfia ou Chicago.

O jovem Theodore Roosevelt construiu um pequeno museu no alpendre de sua casa, onde organizava e catalogava as suas colecções; o pai de Theodore fez parte do movimento que fundou o Museu Americano de História Natural.

De facto, a maioria dos museus nasceu de pequenas (ou grandes) colecções pessoais que eram guardadas em móveis chamados Armários de Maravilhas. Pretendia-se que quem os visse se maravilhasse, obviamente.

Ben, no final do século XX, construiu o seu próprio Museu das Maravilhas – ou mala das maravilhas pessoais – e lança a ideia de que qualquer um de nós pode construir o seu Armário de Maravilhas.

Ben defende que cada humano deve tornar-se curador da sua própria vida, zelando pelas suas referências e afectos, quer estas sejam físicas, quer sejam espirituais:

“Como será escolher os objectos e histórias que entrarão no nosso próprio armário?

Como é que apresentaríamos a nossa própria vida?

Talvez […] todos sejamos armários de maravilhas.”

A leitura nocturna já está no nosso armário

Ben e Rose são dois jovens surdos que enfrentam acrescidas dificuldades de comunicação, mas que conseguem estabelecer ligações fortes com os outros.

A noite no Queens Museum of Art é marcante.

Na verdade, este percurso das personagens por Nova Iorque está já registado na minha viagem de sonho.

Talvez os novos projectos sejam também uma forma de escapar ao enigma que acompanha Ben:

Estamos todos na sargeta, mas alguns de nós estão a olhar a estrelas“.

As personagens encontram as estrelas no cinema (mudo), nos museus por onde deambulam e nos segredos que desvendam na sua própria jornada.

Quanto às imagens, não ilustram a narrativa, constituem a narrativa.

Ando obsessivamente no encalço de Brian Selznick.

A edição portuguesa é da ASA.

A busca começou!

As estrelas aguardam-nos!

Nota: A maioria dos museus nasceu de pequenas (ou grandes) colecções pessoais que eram guardadas em móveis chamados Armários de Maravilhas. Em Portugal, a este acumular desordenado de objectos maravilhosos (as “naturalia” e as “mirabilia”), por aristocratas, eruditos ou clérigos, chamava-se Gabinetes de Curiosidades.

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Voz combativa

A banalidade, a mediocridade e a insensibilidade propagam-se nas redes e nos órgãos de comunicação social.

Procura-se o rídiculo e o caricato das massas e o socialmente expectável das elites.

Talvez seja por isso que os comentadores dos canais televisivos estão ao nível dos programas de Domingo à tarde; tudo é coerente e condicente: são ex e actuais políticos, contabilistas e, na melhor das hipóteses, jornalistas.

Indigna-me o desinteresse que os editores dos canais revelam pelos filósofos, sociólogos, psicólogos, professores, historiadores, escritores, artistas, actores, … Os primeiros poderiam ajudar-nos a compreender e a salvar o mundo ou, pelo menos, a nossa alma; os últimos restituir-nos-iam a esperança, com um relato mais humano e poético do que nos rodeia.

Sempre que ouço um escritor, fico mais desperta e consigo distinguir a beleza das palavras e do pensamento.

Um povo desesperançado é desistente e alheado; a apatia é o nosso maior flagelo. Tudo nos é apresentado como muito maior do que nós, tão grande que nos paralisa e esmaga.

Lídia Jorge foi entrevistada por Bernardo Mendonça e, para além de falar do seu novo livro Misericórdia, comentou o mundo.

Os escritores estão debaixo da mesa a ver que migalhas caem e quem vive delas.

É preciso estar com quem vive de migalhas.”

A entrevista é longa, mas tão lúcida que senti necessidade de reouvi-la.

Tive uma semana bem acompanhada por estas duas pessoas que salientam a nossa humanidade, ultrapassando a nossa sobrevalorizada animalidade.

Lídia Jorge refere a minha triste constatação inicial: “faltam-nos vozes combativas, formadas, éticas e não populistas”.

Os populismos propagam-se quando se acirram pobres contra pobres,

ou quando se aponta o dedo a quem tem fome (os que roubam a lata de atum),

ou quando se afasta do país quem nada tem (refugiados) e se acarinham corruptos (que são elevados a comentadores políticos ou presidentes).

Os populismos multiplicam-se quando não ficamos chocados e revoltados com quem não nos devolve o que nos deve (TAP), com os lucros que disparam nas empresas do retalho e petrolíferas.

Os populismos proliferam quando não há qualquer noção de responsabilidade social por parte de quem concretiza esquemas obscenos à custa da fome alheia.

Posto isto, tal como Sophia de Mello Breyner, em qualquer lugar do mundo, se os meus filhos passassem fome eu roubaria para eles.

“Há no mundo os grandes roubos. Eles estão aí. E esses não são tratados como ladrões. E a pessoa que rouba uma lata de atum é um ladrão. Temos de olhar para isto com outros olhos e não deixar que a sociedade atinja uma situação de penúria imensa.”


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Keep it simple

As reflexões proporcionadas por Redmond Barry em torno das relações foram densas e impactantes.

A discussão seguiu por semanas, pública (na página do Facebook) e privada.

A par dos balanços-charneira e decisões estruturais, são os dias sem história que constroem a narrativa de qualquer par, recente ou antigo. São esses que têm de valer a pena!

Um poema do dinamarquês Henrik Nordbrandt recordou-me a leveza e a suavidade dos primeiros encontros, quando nos aproximamos pé ante pé, “aos bocadinhos”, e tentamos perceber os formigueiros do coração.

esplanada

está a chuviscar um bocadinho

mas não tanto que se possa

chamar a isto mesmo chuva

e vamos ficando molhados lentamente

mas não tão molhados que valha

a pena falar disso

e um bocadinho apaixonados

mas não tanto que se possa

chamar a isto mesmo amor

Henrik Nordbrandt

A leveza inicial pode inspirar o quotidiano: Sting e Melody Gardot lançam o mote.

Ou seremos todos mais latinos, como os franceses, que precisam de causar periodicamente tempestades afectivas, mais ou menos controladas, para adicionar drama a uma relação que o tempo torna entediante? O minuto 7 deste vídeo explica como fazê-lo! É uma caricatura, mas reconheci a Ana de há alguns anos!

O que nos impele para a reacção plácida ou para a reacção sanguínea? Será o carácter, o temperamento, a inteligência emocional, o autodomínio, a maturidade ou a pessoa com quem nos relacionamos?

Ou serão apenas fases da nossa vida: vamos sendo arrebatados por ondas mais epidérmicas ou por vagas mais serenas ?


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Be Fu**ing Perfect

Estereótipos ainda em vigor:

O que confere poder a uma mulher é a beleza, a juventude e a elegância.

O que confere poder a um homem é a conta bancária, o estatuto social e o carisma.

Segundo este padrão, o capital masculino não oscila significativamente com a idade, nem com o peso da balança.

Não é preciso especial perspicácia para repararmos que o capital feminino fica em perigo a partir dos 50 anos.

É óbvio que esta bolsa de valores está inquinada e em transformação, mas é ingénuo pensar que uma indústria que lucra brutalmente com a disseminação destes princípios não nos influencia e não nos atormenta.

Pessoalmente, não auspicio um processo fácil, apesar de estar consciente do fenómeno e empreender uma incansável labuta interna.

É precisamente dos nossos receios e inseguranças que o crescente negócio de harmonização estética se alimenta.

Hoje, são-nos prometidas todas as soluções à la carte:

“moldar, transformar, cortar carne, alisar, aclarar, queimar a pele, comprimir e absorver mecanicamente a gordura, ingerir e injetar fármacos, toxinas, hormonas e outras biotecnologias líquidas, inserir prostéticos e implantes, enfrentar cirurgias extremas ou criar carne e contornos com silicone industrial”. – Chiara Pussetti

Instalação inserida na exposição “Be Fu**ing Perfect”

Aceitar as alterações que os anos trazem ao nosso corpo exige amor-próprio, carinho, robustez mental e muita generosidade.

Resisitir a imagens de perfeição e apelos agressivos para que encaixemos numa beleza irreal criada por técnicas de edição profissional é uma epopeia! Já não são apenas as revistas e os anúncios publicitários, as actrizes ou modelos que nunca ultrapassam os 30 anos de idade que nos fragilizam; vaguear pelo Instagram pode ser um rude golpe para uma autoestima em dia.

Até onde estamos dispostas a ir para travarmos esta luta contra o desvio, contra a gordura, contra o tempo, contra o nosso corpo?

Qual é o caminho socialmente aceitável?

– Rejeitar as preocupações estético-corporais e assumirmos o rótulo de “acabadas e descuidadas”?

– Investirmos em todos os métodos e ficarmos as “fúteis irreconhecíveis”?

Treino, estoicamente, o espírito e o corpo, assim como os afectos que me rejuvenescem mas, assumo, patrocino a indústria cosmética, com cremes, séruns, aclaradores, tintas e mil produtos capilares,… e, apesar do pavor que sinto por agulhas, não me sinto em condições para prometer o que quer que seja em relação ao meu futuro.

Abordando estes e outros temas, esta exposição, sob a curadoria da antropóloga e investigadora Chiara Pussetti, apresenta os resultados do projecto de quatro anos de investigação: “Excel. Em busca da Excelência” .

As fotografias de Evija Lavinia e Jessica Ledwich impressionaram-me e a série de debates que decorrem até 15 de Outubro na galeria Oriq são tão imprescindíveis como desconfortáveis.

Foi uma experiência tão inquietante que fez nascer um projecto, a quatro mãos, de divulgação e intervenção cultural: “Conviction, not Opinion“.

Algumas das conclusões que registo aqui são precisamente o resultado de uma reflexão conjunta com a minha amiga Carmen Santos.

Apesar de nos sentirmos almas em contínua construção, o nosso lema, hoje, é:

Be Fucking Perfect! Be fucking You!

Se quiserem ser provocados, sigam-nos!


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O Coração Ainda Bate

Para a rentrée, Redmond Barry não teve contemplações e abordou um tema muito doloroso: a rejeição.

Não se trata da rejeição pontual – aquela que nos derruba por uns dias, mas para a qual fomos criando artilharia de resistência – fala-nos da rejeição recorrente, aquela que acontece quando o amor de uma vida nos afasta sistematicamente.

É um tema duro.

Numa relação longa, há períodos de maior desvio e de maior cumplicidade.

Julgo que discernir o momento de persistir do momento de desistir é o grande desafio.

É preciso coragem, honestidade e lucidez para tomar a única decisão que sentimos verdadeira, qualquer que ela seja.

Com a certeza, porém, de que a um afecto unilateral não se chama amor.

Não sei se a dor da rejeição é mais vincada no feminino ou no masculino: no passado, as mulheres aceitaram-na em silêncio, a bem da sua sobrevivência, do “seu bom nome” e da instituição familiar. Tempos bolorentos que já não nos definem…

No século XXI, humanos de todos os géneros já passaram pela experiência de escolher a pessoa errada;

quase todos já ficaram demasiado tempo com a “escolha inadequada”

e outros tentaram, diligentemente, convencer-se de que, com esforço pessoal, essa pessoa poderia ainda transformar-se na certa.

Inês Maria Menezes, numa entrevista com Bernardo Mendonça, leu o seguinte excerto de Hanif Kureishi, do livro Meia noite todo o dia:

“Somos infalíveis na nossa escolha de amantes, particularmente quando precisamos da pessoa errada. Existe um instinto, uma força magnética ou antena que busca o inadequado.

A pessoa errada é obviamente certa para determinadas coisas… Para nos punir, oprimir ou humilhar, para nos desiludir, abandonar ou, pior ainda, para nos dar a impressão de não ser inadequada, mas quase certa, mantendo-nos assim presos no limbo do amor.

Não é toda a gente que é capaz de fazer isto?

As relações íntimas são tão complexas, intensas e voláteis:

às vezes, a pessoa certa metamorfosea-se e torna-se errada;

outras vezes, somos nós que deixamos de ser os certos;

e temos de reconhecer que, algumas vezes, somos nós os inadequados de uma bela história de amor a acontecer (se não fôssemos nós o erro).

Parece que a vida é feita disto: forças magnéticas, inadequações e limbos de amor, êxtase e devastação.

Mas, felizmente, “o coração ainda bate“.

Fotografia: da alemã Corinna Hopmann.

Título do post: roubado ao podcast e ao livro de Inês Maria Menezes, O Coração Ainda Bate.


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Rejeições

Redmond Barry é meu amigo, tem 40 anos, é bonito, culto e inteligente.

Tem tudo para se sentir absolutamente afortunado, mas é possível ser lúcido e feliz?

Fernando Pessoa já há muito deu resposta a essa questão!

Portanto, resta-nos reflectir.

Chegou o momento de dar espaço à perspectiva masculina, neste blog.

O que tens a dizer das tão assombrosas/espinhosas relações românticas?

Rejeições

Certamente que uma das piores emoções pelas quais um ser humano passa advém de uma qualquer rejeição e todos nós já fomos sujeitos, em maior ou menor medida, a várias. Seja numa entrevista de emprego, seja por parte de um grupo de amigos ou devido a um amor não correspondido, quando somos rejeitados um sentimento que pode ir da tristeza à revolta invade-nos o coração e, consoante o caso, pode durar uns minutos, umas horas, uns quantos dias ou até algumas semanas.

Muito pior, todavia, é viver numa constante rejeição que, pelo que me tenho dado conta, é algo que atinge muitos casais. A partir de determinado momento, por variadíssimas causas que me ultrapassam, embora por vezes também sem qualquer motivo aparente, um dos membros do casal desliga-se progressivamente do outro. Deixa de querer ter um momento a sós, de passar ocasionalmente um pôr-de-sol abraçado como se de um casal de adolescentes se tratasse e, claro, deixa inevitavelmente de ter qualquer relação sexual ou tem-nas com uma frequência residual e/ou por achar que deve cumprir uma obrigação. Não faço ideia de qual será a quantidade de casais afetados por este problema, pois os estudos sobre esta matéria sofrem com uma grande variação já que se baseiam em questionários anónimos de autopreenchimento. Ainda assim, estima-se que entre a 10% a 20% das relações de longo prazo um dos membros é rejeitado sistematicamente.

               É para mim muito difícil compreender as motivações de quem rejeita, com exceção de quando se trata de impor algum castigo, vingança sobre o parceiro ou um inegável problema de saúde. Se quem rejeita tivesse um mínimo vislumbre do que causa na outra pessoa, rapidamente tomaria uma de duas ações possíveis. No caso de pretender manter uma relação saudável procurava, por todos os meios e da forma mais célere possível, resolver o problema. A outra opção era libertar o parceiro (ou parceira, pois têm-me chegado vários relatos no feminino) de uma relação que progressivamente se tornará, usando a terminologia woke, tóxica. Se uma rejeição é difícil de digerir, quando é constante toma proporções cumulativas que desencadeiam um conjunto de sentimentos e ações extremamente negativos. A perda de autoestima é inevitável e pode atingir dimensões danosas a um ponto obsessivo, sobretudo porque estes problemas surgem tendencialmente numa fase mais avançada da vida quando os primeiros sinais de envelhecimento físico surgem – perda de cabelo, mudança na cor do cabelo, aumento de peso, perda da dentição, etc. Segue-se uma crescente revolta interna contra quem nos rejeita, correndo-se o risco de se transformar uma pessoa em tempos amada numa entidade abjeta e odiada. Estes sentimentos, todavia, não se circunscrevem ao seio familiar e o rejeitado começa inclusivamente a ter atitudes que não lhe são inatas em todos os meios sociais em que se move.

               Então porque não aceitar, sem dramas, que o amor terminou? É verdade que há sempre muitos encargos conjuntos que, entretanto, se adquiriram – bens móveis e imóveis, filhos, amigos e familiares para gerir –, mas até que ponto se deve arrastar uma situação que leva a uma autodestruição anunciada?   Haverá alguma solução disponível? Aconselho a audição desta entrevista que me parece muito certeira no diagnóstico e desfecho deste tipo de situações.

Rio Ponsul, seco, árido e estéril


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3 Gerações

Li algures que, para mudar um padrão social, são necessárias 3 gerações.

Como ser humano, mulher e mãe de uma rapariga, espero que os trilhos percorridos jamais retrocedam.

Felizmente, eu não posso comparar a minha adolescência com a da minha mãe ou com a da minha avó que nasceu em 1925: duas mulheres fortes, mas condicionadas pelo que os outros esperavam delas.

A minha filha está ainda mais afastada desse paradigma exigido pela família e pela sociedade; está também distante daquele que orientava as miúdas que cresceram nos anos 80 numa pequena cidade junto ao mar.

Como isso me deixa feliz!

Hoje, já adulta, devo muito à minha filha pré adolescente.

Foi com ela que perdi totalmente o medo de palavras como menstruação, vulva/vagina, pénis, testículos, orgasmo ou relações sexuais.

Um dos projetos dela para este ano letivo é fazer parte da Associação de Estudantes da escola e lutar para que se disponibilizem recolectores menstruais gratuitos nas casas de banho. Está muito perturbada com a pobreza menstrual que ainda existe no nosso país. Eu também estou, porque descobri há poucos meses que há várias crianças, em Estremoz, que não têm casa de banho!

Eu passei metade da minha vida sem conhecer a total dimensão do meu clitóris e sem dintinguir vulva e vagina. A minha filha está perfeitamente familiarizada com o seu órgão reprodutor.

Eu ainda sofri ecos de uma tradição patriarcal que insinuava uma superioridade masculina, não só física, mas também intelectual e de usufruto de direitos.

A minha filha nem concebe tal absurdo.

Eu vi/vejo a minha vida sexual perscrutada e cresci com alertas em relação ao que “parece mal”.

Se tudo correr dentro do previsto, a minha filha há-de viver a sua sexualidade como bem lhe der na gana!

Pouco antes de eu nascer, a NASA lançou uma cápsula para o espaço com informação sobre a vida na Terra. O homem foi com pénis e testículos; a mulher embarcou sem vulva.

Parece que a primeira versão do desenho era demasiado gráfica. Podia assustar os marcianos, uma vez que incomodava, sem dúvida, os terráqueos.

Há ainda um percurso, mas penso que as questões que atormentaram os adolescentes do passado já não atormentarão os adolescentes do futuro. Sou optimista.

Receio que demasiado optimista, porque vivemos na era da harmonização facial, corporal e genital.

Todas estas imagens são de um livro muito bem humorado mas muito sério da sueca Liv Stromquist, O Fruto Proibido. Leitura obrigatória!


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Levezas

O Alentejo tem estado insuportavelmente quente e, como sempre, fugimos, em Agosto, para o mar materno.

Levo um T.P.C.: treinar este up de estilo com as dezenas de lenços e écharpes que acumulei ao longo dos anos e que já não uso ao pescoço.

E alguns vestidos leves na mala.

Tenho à minha espera, na marginal figueirense, uma bicicleta oferecida pelo meu Pai, mas palpita-me que só no Pinterest se consegue este ar fresco e elegante… Lembrete: usar um vestido ou saia pretos.

Eu sujei o meu vestido de linho com óleo, na primeira tentativa glamorosa.

De resto, é apanhar sol e mar, brindar às férias e abusar das minhas escolhas de estações passadas.

Encurtar a saia, enquanto não sou perscrutada por duas dezenas de adolescentes, também é uma opção..

Como não sou perfeita, prevariquei e comprei estas sandálias, com a condição de calcorrear novos caminhos.

Estas são a prevaricação do ano passado!

Para me redimir, vou tentar recuperar os velhos coletes para a rentrée!

Boas Férias!

Redmond Barry promete voltar a desassossegar-nos em Setembro!

Mas vamos embarcar em 30 dias de Leveza!


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Principiantes

Redmond Barry foi convidado a refletir acerca das relações amorosas:

“[…] os filhos monopolizam os cuidados e carinhos maternos a tal ponto que, ao cabo de alguns anos, quase não haverá espaço para [o marido] no coração da mulher”. […]

[regista-se] afastamento emocional entre marido e mulher após o nascimento dos respetivos filhos.

[Actualmente] À classe masculina, nos relacionamentos heterossexuais, cabem as mesmas queixas efetuadas observadas há quase cento e vinte anos pelo lavrador de Elvas.” 

Houve muitos comentários públicos e privados às palavras de Redmond Barry, maioritariamente masculinos. Apercebi-me de que ainda vivemos numa cultura que limita a verbalização do sofrimento emocional masculino. “Os homens não choram” é a frase mais destruidora da saúde mental: as lágrimas que se engolem afogam-nos, mais cedo ou mais tarde.

Na verdade, a invulnerabilidade e o perfeccionismo ampliados pelas redes sociais e por uma cultura de sucesso ostensivo cilindra mulheres e homens.

A única solução que me parece viável para mitigar os afastamentos amorosos (os que podem ser mitigados…) talvez passe por negarmos essa superficialidade e chorarmos juntos, quando estamos angustiados ou desiludidos com o rumo da relação. De preferência, sem acusações, sem subterfúgios, sem belicismos e sem amarguras.

É quase impossível, quando somos só humanos.

Não considero que a culpa do afastamento esteja no masculino ou no feminino: a vida a dois a longo prazo nos moldes convencionais não é para todos; a vida a dois a longo prazo, com filhos, talvez seja só para quem tenha uma capacidade de abnegação extraordinária… e uma enorme resistência ao tédio.

Concordo com o diagnóstico apontado por Redmond Barry, mas não coloco o ónus na mulher.

Nos primeiros meses/anos com bebés em casa, há um vendaval de hormonas, de tarefas, de reajustes, de solicitações e de amor rupestre que nos abalroa. A prioridade é sobreviver à exaustão. Se tudo correr bem, é um trabalho de equipa de dois esfarrapadas: a mulher está completamente assoberbada e o homem está a tentar perceber o seu lugar naquele desalinho global que não sabe/não consegue/não quer organizar.

Talvez a mulher ande mais distraída da relação romântica durante os primeiros meses, mas a frustração pela falta de humor, cumplicidade e erotismo também chegará, indecorosamente. É-nos ainda difícil verbalizar essas contrariedades, sobretudo depois de sermos mãe. Esse será um bom tema para outra conversa, Redmond Berry!

Os nossos progenitores repetiram os moldes do passado: as nossas mães lavaram incontáveis fraldas de pano, no intervalo dos exigentes horários de trabalho, e os nossos pais giraram entre a profissão e a mesa da cozinha… apenas para jantar.

Nós quisemos testar novas fórmulas e cometemos muitos erros, erros novos e inéditos.

Acredito que estamos numa época de viragem de modelo familiar, necessariamente tumultuosa: os homens tornaram-se plenamente presentes na educação dos filhos, mas não tanto na vida doméstica que continua a recair de forma pouco equitativa e asfixiante sobre a mulher.

Quanto a mim, quis ser o que as mulheres que me antecederam não ambicionaram: uma mãe mais do que incrível, absolutamente extraordinária, uma profissional incansável, empreendedora, criadora de conteúdos inspiradores, decoradora boho, no meio do ciclone que é mudar de casa duas vezes e estabilizar-me numa nova cidade. Tudo isto antes da Beatriz fazer 3 anos!

Claro que esta imagem utópica da mãe do novo milénio é esquizofrénica: foram 3 anos de que mal me lembro.

Acabei por me perder e colocar em coma a Ana que eu conhecia.

Acredito que acontece com muitas mulheres esta luta interna entre a realidade e uma versão de si próprias fantasiosamente moderna e que se revela auto e heterodestruidora.

Foi o que me aconteceu, aos 35 anos, quando acrescentei uma filha a uma relação de 10 anos, com o melhor pai que poderia ter encontrado.

Demorei quase uma década a estabilizar-me. Ainda estou em processo, mas muito mais consciente do que me cilindra.

Aprendi a confiar e a delegar nos outros, mesmo sabendo que, muitas vezes, eu faço de forma diferente e, provavelmente, melhor. Também me ajudou morder a língua quando estava para sair uma crítica acerca da fralda mal colocada ou do pijama cheio de nódoas que saiu, alegremente, à rua.

Há, no entanto, casos graves de falta de comunicação e de atenção em que cada amante se fecha e acumula mágoas que minam a concha comum até não sobrar nada.

E há o que, do meu ponto de vista, não tem solução: a total desilusão relativamente ao companheiro que não corresponde ao pai que nós queremos para o nosso filho. Julgo que essa é mesmo a dor maior e o afastamento, neste caso, é irreversível.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Jovem Poeta confidencia-nos:

“As exigências que o difícil trabalho do amor coloca ao nosso desenvolvimento são maiores do que aquilo que é natural, e nós, principiantes, não estamos à sua altura.”


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Persistências e Afastamentos

Redmond Barry é meu amigo, tem 40 anos, é bonito, culto e inteligente.

Tem tudo para se sentir absolutamente afortunado, mas é possível ser lúcido e feliz?

Fernando Pessoa já há muito deu resposta a essa questão!

Portanto, resta-nos reflectir.

Chegou o momento de dar espaço à perspectiva masculina, neste blog.

O que tens a dizer das tão assombrosas/espinhosas relações românticas?

Persistências e Afastamentos nas Relações de Longo Prazo

No final da década de 1960, José Cutileiro apresentava a sua tese de Doutoramento na Universidade de Oxford, posteriormente editada no final da década seguinte com o título Ricos e Pobres no Alentejo. Tratou-se de um estudo de antropologia social sobre a sociedade rural portuguesa do Sul com base, sobretudo, no trabalho de campo que o autor realizou em Monsaraz nos anos de 1965 a 1967. Ao analisar a vida conjugal, Cutileiro identificou o afastamento do casal à medida que “(…) os filhos monopolizam os cuidados e carinhos maternos a tal ponto que, ao cabo de alguns anos, quase não haverá espaço para [o marido] no coração da mulher”. Esta observação, todavia, não constituiu qualquer novidade, pois escrevendo igualmente sobre os costumes alentejanos, mas fazendo-o mais de 6 décadas antes, José da Silva Picão, lavrador da região de Elvas, notou precisamente o mesmo comportamento que acabou por imortalizar no clássico Através dos Campos.

               É assaz curioso verificar que os mais de 60 anos que separam os dois textos, no já aceleradíssimo século XX, não parecem ter feito qualquer diferença, pois tanto o cientista social recentemente falecido, como o aclamado autodidata que nunca passara da instrução primária, fizeram questão em registar o afastamento emocional entre marido e mulher após o nascimento dos respetivos filhos. Entre Picão e Cutileiro vai, muito mais do que a distância física entre Santa Eulália e Monsaraz, um oceano de diferença tecnológica entre a junta de bois e o trator; o comboio e o avião a jato; a oralidade dos contos tradicionais e a série Bonanza que podia ser televisionada nas casas mais abastadas ou no aparelho da Casa do Povo. No entanto, na intimidade tudo parece tremendamente igual.

“Separação” – 1896 – Edvard Munch

               E agora, cujo arco temporal que nos separa de Cutileiro é sensivelmente o mesmo que entre os dois autores atrás mencionados, estarão as coisas neste aspeto diferentes? Os ecos que me chegam parecem-me indicar que não. À classe masculina, nos relacionamentos heterossexuais, cabem as mesmas queixas efetuadas observadas há quase cento e vinte anos pelo lavrador de Elvas. Não obstante a falta de cientificidade das observações que registo – não serão mais do que uma vintena no funil que é o meu meio social –, surge-me a dúvida se tal é devido a questão biológica, a uma atitude social que teima em persistir ou, na opção aparentemente mais sensata, a um pouco de ambos. Quem perde são os maridos, as mulheres e as relações de longo prazo que parecem estar condenadas ao insucesso de uma separação ou a um perpétuo comodismo esmagado pelos compromissos entretanto assumidos pelo casal. Talvez, na realidade, as relações de longo prazo, muitas vezes materializadas no casamento, sejam uma tremenda fraude e não correspondam a mais do que uma estratégia económico-social adaptada às frágeis economias pré-industriais, mas totalmente desadaptadas à realidade pós-industrial, explicando-se assim a projeção que aponta para mais de 90 divórcios por cada 100 casamentos no ano de 2020 em Portugal.

Polémico ou unânime?

You Rock, Redmond Barry!!