“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Otium

A velocidade provoca a blindagem do coração.

Os acontecimentos sucedem-se assim como as emoções, acumulam-se em camadas até conseguirmos parar, reflectir, decidir e interiorizar.

Até lá, andamos anestesiados: insensíveis à desgraça alheia , paralisados para agir conscientemente ou para ver o outro, incapazes de nos olharmos por dentro.

A introspecção requer tempo e paz.

Há uns anos era mais fácil; tínhamos trabalho e tarefas, mas não existiam as distracções, a dinâmica cibernética e a parafernália informativa que existe hoje.

Por outro lado, apesar de assolados, hoje, vivemos num pavor do aborrecimento, do não fazer nada, do esperar.

Um medo constante de não saber o que está acontecer nos antípodas ou que alguém se esqueça de nós porque não aparecemos nas redes sociais

Esquecemo-nos que só a espera e o espaço temporal liberta o cérebro.

O meu está mesmo a precisar de ser libertado!

Ilustrações do brasileiro William Santiago.

 


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Alienar

Uma marca é muito mais do que o nome de um produto;

um logotipo tem como objectivo suscitar imagens, estilos de vida e sonhos.

Eu, a viver o Alentejo profundo, sou a cliente alvo da marca nova-iorquina, Soludos:

sonho com uma vida de viagens e nomadismo, mas com algum luxo e estilo, ainda que seja na Amazónia ou no Sahara.

A estratégia desta marca consiste em  publicar fotos de diários de viagem de bloggers, transmitindo-nos a ideia de que aquele glamour das imagens está ao alcance de qualquer um de nós (se comprarmos o produto, claro…).

Fico sempre impressionada com fotos arrumadas e frescas, independentemente da temperatura e da poeira do ar.

São produções fotográficas disfarçadas, eu sei, que fixam um momento, mas o objectivo é bem atingido: suspiro e guardo a marca Soludos num espaço do meu cérebro reservado a um ideal de vida perfeita.

Itália perfeita

França? Perfeita.

Croácia mais que perfeita!

Marrocos

Bali

Índia

Missão cumprida, Soludos!

Conquistada!

Se não tivesse noção do que está a acontecer-me, ia já endividar-me, calçar Soludos e calcorrear, glamourosamente… Estremoz!

 

 


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Icons

-O que sabes, hoje, sobre os homens que não sabias há 15 anos?

-Acho que são de outro planeta: o esquema mental é mesmo diferente do feminino, e o meu relacionamento com eles melhorou desde que interiorizei essa evidência;

mas são muito mais frágeis e sensíveis do que eu julgava.

Admiro o lado lúcido, inteligente, prático e descomplicado dos homens que conheço (e admiro!), mas com o passar dos anos venho a identificar-me mais com o planeta feminino.

Nem sempre assim foi, eu tinha grandes teorias acerca da igualdade e dizia que apenas me interessava o ser humano que tinha diante de mim… agora reparo que gosto de seres humanos mas que os seres humanos que mais prezo são em maior quantidade (não qualidade!) do género… feminino.

Andarei sugestionada?

Será coincidência?

Uma fase?

Num tempo em que se quer igualdade e homogeneidade a qualquer custo, parece que não é muito moderno assumir que, nos últimos anos,  tenho gostado mais de estar rodeada de mulheres do que de homens.

Para já, não elaborei qualquer teoria, é apenas uma constatação.

Não sei até que ponto este mundo de mulheres não influencia a Beatriz…

Uma das suas últimas questões:

-Pai, não tens pena de não ter nascido menina?

Tenho de rever-me; não quero educar para qualquer tipo de discriminação.

Quanto à Arte, não tem género ou, pelo menos nesse campo, a minha sensibilidade não demonstra preferência:

há intérpretes, compositores, escritores, actores, pintores, escultores de todos os géneros e geniais. Ponto!

dollyparton Libby Vander Ploeg

 

Lauren Bacall

Frases ilustradas por: Libby Vander Ploeg.


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A minha cidade

A Lunna desafiou-me a publicar 6 fotografias, subordinadas a um tema, no sexto dia de cada mês.
O tema de Julho é: A minha cidade.

O que fazer quando a vida nos oferece 3 cidades?

Figueira da Foz, a cidade onde nasci, a 20 metros do mar.

A cidade do vento frio na cara que arrepia e desperta.

A cidade que é “o lugar certo”; a cidade pôr do sol, a cidade da menina do mar.

A cidade aonde voltarei para buscar todos os instantes que não vivi junto do mar – Sophia.

Coimbra, a cidade onde cresci e descobri a Amizade: amigos de papel  e amigos de carne e espírito. Para a vida.

Quis o destino que, anos mais tarde, fosse aqui que eu conheceria o Amor: a Beatriz nasceu em Coimbra.

Estremoz, a cidade de adopção.

A cidade das janelas bonitas, do mercado, do dia-a-dia tranquilo, dos vizinhos, do café Delta, do Lar.

Bacio, Lunna!

Adorei participar neste projecto!

Grazie mille!


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Verdade

Será a verdade um valor tão indiscutível quanto nos querem fazer crer?

Viver em verdade connosco e com os que nos são próximos, sem dúvida, mas quantas vezes mentimos ao longo do dia?

Tinha um lema com uma colega de trabalho que consistia em nunca dizermos uma à outra que estávamos com ar cansado ou doente.

A partir do momento em que alguém nos apontasse essa verdade sentíamo-nos fatalmente com olheiras até aos cotovelos e febris.

Seguem 5 mentirinhas que uso para sobreviver a conversas de circunstância:

1-Que idade achas que tenho? (a pergunta mais armadilhada que conheço)

R: (Acho que tens 45 anos, mas como perguntas queres ouvir…) 40, não?

2-O que achas destas calças?

R: Giras! (agora já sabem; se eu não disser mais nada é porque não são fantásticas)

3-Tenho razão, não tenho?

R: Alguma (pouca e a que tens não vale nada!)

4-Achas que sou chato?

R: Não (mas já respondi a isso 10 vezes na última meia-hora!).

5- Estou mais gorda?

R: Não (nunca! lá agora!)

A propósito de dizer coisas fofinhas, o que eu gostei desta colecção de postais para enviar, quando não estamos para uma mentira piedosa ou quando fica o fastio estampado na nossa cara…

Que vontade de enviar emails!

Do ilustrador Killien Huynh.

 


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Lembranças

A Lunna desafiou-me a publicar 6 fotografias, subordinadas a um tema, no sexto dia de cada mês.

O tema de Junho é: Lembranças.

Fiquei perdida no tema.

O nome deste blog não é Frasco de Memórias por acaso:

acredito que nós somos construídos pelas memórias que acumulamos, refletimos e revivemos;

também me sinto totalmente responsável pelas memórias que a Beatriz guarda, sobretudo nestes primeiros anos de vida.

Este blog nasceu por esses dois motivos e porque quero apaziguar-me comigo e com o presente, registando o melhor dos dias.

Como se vê, as ideias pulverizam-me o pensamento…

O que são afinal lembranças, segundo o dicionário de língua portuguesa?

1. Lembrança: “Ato mental pelo qual a memória reproduz um facto passado”.

(A minha missão actual consiste em coleccionar belos factos para que os actos mentais da Beatriz sejam profundamente felizes.)

2. Lembrança: “Recordação”.

(Estas rugas ficarão, para sempre, marcadas nestes pezinhos e na minha “recordação”.)

3. Lembrança: “Apontamento para auxiliar a memória”.

(As fotografias são um dos meus “apontamentos” preferidos: esta tem 88 anos).

 

4. Lembrança: “Alvitre, ideia”.

(Um método, para não esquecer uma bela ideia encontrada, é registá-la: qualquer forma é válida.

Esta é de Afonso Cruz, do meu livro predilecto.).

5. Lembrança: “Presente, dádiva, geralmente de pouco valor”.

(Estes presentes são mesmo os que mais aprecio, cheios de afecto).

6. Lembrança: “Objecto vendido ou comprado para fazer lembrar algo ou alguém, geralmente um local”.

(Quando sou muito feliz num local, gosto de trazer alguma coisa que materialize esse momento e o encaminhe para minha casa: pode ser um ramo, uma flor, uma pedra, uma boneca – esta “lembrança” veio da minha primeira visita ao Talasnal com a Beatriz.).

Bacio, Lunna!


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Perspectivas

Coimbra, 2012

-Como é que uma festa académica, a Queima das Fitas, tem como atracção musical Quim Barreiros?

-Professora, não seja elitista!

(Eu a sentir-me entre o amarelo e o cor de laranja, metafórica e literalmente!)

Elvas, 2017

-A repressão do Estado Novo… limitação da liberdade de expressão… censura e PIDE…

-Professora, precisamos de Salazar.

(Eu a ficar vermelha, metafórica e literalmente!)

 

Sem radicalismos, sinto-me muito mais desconfortável com a segunda posição.

Espero de todos os jovens uma inocência e uma Fé no Mundo e no Homem que nem sempre lhes corre nas veias.

O mundo mudou e a esperança vai-se escoando, embora a maior parte deles agarre o futuro, entre notícias constantes de desemprego, ataques terroristas, radicalismo e demagogia política.

Um discurso alarmista terá consequências:

uma geração desconfiada e assustada viverá no individualismo, na intolerância e, consequentemente, na insensibilidade relativamente aos mais frágeis.

Esta geração não merece o cheiro a mofo do quarto escuro.

Quero que os seus olhos brilhem e o seu coração seja de todas as cores!

Imagens de Rosie Hardy.