“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Sozinha

O sonho da maior parte das jovens que conheço não inclui viver sozinha.

Essa ideia recebe um nariz torcido e uns olhos abertos de espanto.

E eu espanto-me com esse espanto.

Não fui uma jovem muito irreverente, mas assim que comecei a ficar independente quis a minha casa.

Demorou, porque é muito mais económico partilhar.

Vivi 4 anos sozinha, em casas tão pequenas que não conseguia simular o homem de Vitrúvio, mas as mudanças foram sempre muito entusiasmantes e as noites muito, muito tranquilas.

Não me lembro de ter medo ou de sentir-me infeliz.

Lembro-me de acalmar facilmente na minha toca.

Ainda é assim muitas vezes.

Durante esse tempo, aprendi muito sobre mim, sobre as minhas qualidades, sobre como ultrapassar as minhas fraquezas e sobre as minhas limitações.

Houve dias difíceis, sobretudo devido a esses confrontos comigo, mas recordo esses anos como uma experiência de paz e luz.

Ficou-me, destes tempos, uma grande necessidade de estar em silêncio, com tempo e a sós.

Características que não são as mais esperadas numa mãe.

Valores muito difíceis de manter numa casa cheia e, felizmente, movimentada.

Hoje, numa outra fase da vida, de partilha constante e intensa, saboreio com calma e liberdade os minutos em que fujo para tomar um café…

só comigo!

Yaoyao Ma Van viveu 7 anos sozinha e recomenda, como testemunham as ilustrações.

É verdade, estou a ser pouco rigorosa: vivi sempre com dois gatinhos super-companheiros!

 

 

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Casual

O que mais me desgasta no correr dos dias é… correr.

Sempre em velocidade, sempre atrasada e sempre com a sensação de estar em falta com alguma tarefa.

Ainda estou à espera que a rotina se interiorize.

Já sei que não vou deixar de correr, mas habituo-me a esta vertigem.

Para já, e como o Verão ainda dura, ando a namorar novo calçado para correr com estilo!

Do blog da Andy.

No próximo Verão, talvez regresse o look boneca.

Imagem do blog Devil Wears Zara

 

 

 


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Pele

A gravidez altera profundamente a vida de uma mulher.

Torna evidente a maravilha de existir, redimensiona a mulher, assim como a tudo o que a rodeia.

Traz também pequenas mudanças apaziguadoras: a minha relação com o meu corpo pacificou-se;

o meu corpo, com imperfeições e defeitos, cumpriu a sua mais nobre missão: a criação de um ser humano.

Claro que esse corpo, que foi atingido pelo divino, nunca mais ficou igual.

Ganhei uma baguete na zona do baixo ventre e uma facilidade incrível para acumular gordura nas imediações.

É a natureza de sobreaviso, porque não quer ser apanhada novamente sem reservas!

O cabelo perdeu volume e os caracóis.

A pele, que era mista, ficou seca, manchada, e muito sensível.

Depois de anos a tentar perceber o que a apaziguava, descobri.

Deixei o tónico de há anos; fidelizei-me à água micelar e percebi que a pele do meu rosto só se sacia com óleo de rosa mosqueta: muito óleo de rosa mosqueta, de preferência de manhã e à noite, depois do creme hidratante.

Claro que quando a minha amiga Ana me sugeriu esta solução, eu duvidei.

Porquê?

Porque o óleo de rosa mosqueta é barato, é totalmente natural e não tem uma embalagem design.

Bem… a gravidez não altera tudo: continuo a manienta de sempre.

Mais humilde…

Talvez.

Ilustrações de Choi Mi Kyung ou Ensee.

 

 

 


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Velha

-Está velha!

Como é que um adjectivo que descreve um estado pode ter esta carga pejorativa?

 

“Velha”  surge como pouco cativante, enrugada e pouco (ou nada!) sedutora.

A culpa é da “sociedade em que vivemos”… que é a resposta mais fácil, mas não a única.

De facto, vivemos rodeados de imagens de perfeição onde foram apagadas rugas, gorduras, manchas e sinais… aliás, para sermos sinceros, foram apagadas as mulheres (e homens) com mais de 50 anos.

Eliminados das séries, filmes, revistas e até da publicidade, a não ser para vender cálcio ou aparelhos auditivos.

Esta estratégia de eliminação dos mais velhos é ainda mais cruel para as mulheres:

querem convencer-nos de que a nossa feminilidade diminui à medida que o corpo perde as formas da juventude.

Como se a idade nos assexualizasse.

Ou como se a sensualidade só estivesse presente em corpos angulosos, estrategicamente intumescidos e esticados.

Se a irreverência e insubmissão acompanharem a idade ainda nos arriscamos ao cognome de “velha gaiteira”… que é, basicamente, o que eu quero ser quando for grande!

Andava nestas reflexões quando li o texto de Ana Alexandra Carvalheira.

“[…] a sexualidade [é encarada pela sociedade] como um privilégio exclusivo da juventude, ou seja,

a sexualidade é para pessoas jovens, atraentes e saudáveis. Somos bombardeados pela comunicação

social com imagens sexuais que sempre representam pessoas jovens, energéticas, atraentes e magras

ou atléticas. E estas representações já não são a realidade a partir de uma idade muito anterior aos

60 anos! Muito antes de se chegar à idade sénior, homens e mulheres começam a sentir que já não são

fisicamente atraentes, o que perturba o interesse e a receptividade para o sexo. Sobretudo as mulheres,

muito mais ameaçadas por tais exigências para manter determinados padrões de beleza física. E é agora

o momento de falar no duplo padrão do envelhecimento. Isto significa que, na mulher, impõe-se a

exigência dum corpo atractivo, e no homem, são valorizados o estatuto e os recursos sociais, intelectuais

e económicos, sobretudo. E assim, há uma assimetria erótica muito injusta para as mulheres e

favorecedora dos homens. As mulheres, tendo mais plasticidade erótica, são menos afectadas no seu

erotismo pelo abdómen proeminente do parceiro, pela cor branca do cabelo ou mesmo pela falta deste.

Pelo contrário, os homens não erotizam o cabelo branco das mulheres nem a gordura abdominal ou a

falta de tonicidade da pele. Uma prova da persistência deste duplo padrão, é a admiração gerada pela

idade da esposa do Presidente Francês, Emmanuel Macron, recentemente eleito. Como pode um homem

tão jovem e atraente estar casado com uma mulher 24 anos mais velha do que ele. Pois é, se fosse ao

contrário, ela muito mais jovem do que ele, ninguém diria nada. É completamente ainda verdade a

afirmação de Susan Sontag em 1975:

“Um homem, inclusive um homem feio, mantém-se sexualmente elegível até ter uma idade avançada.

É um parceiro aceitável para uma mulher jovem e atraente. As mulheres, tornam-se inelegíveis numa

idade muito mais jovem. Assim, para a maior parte das mulheres, o envelhecimento constitui um

humilhante processo de desqualificação sexual.”

Triste esta ser ainda uma ideia generalizada em 2017!

 


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Alienar

Uma marca é muito mais do que o nome de um produto;

um logotipo tem como objectivo suscitar imagens, estilos de vida e sonhos.

Eu, a viver o Alentejo profundo, sou a cliente alvo da marca nova-iorquina, Soludos:

sonho com uma vida de viagens e nomadismo, mas com algum luxo e estilo, ainda que seja na Amazónia ou no Sahara.

A estratégia desta marca consiste em  publicar fotos de diários de viagem de bloggers, transmitindo-nos a ideia de que aquele glamour das imagens está ao alcance de qualquer um de nós (se comprarmos o produto, claro…).

Fico sempre impressionada com fotos arrumadas e frescas, independentemente da temperatura e da poeira do ar.

São produções fotográficas disfarçadas, eu sei, que fixam um momento, mas o objectivo é bem atingido: suspiro e guardo a marca Soludos num espaço do meu cérebro reservado a um ideal de vida perfeita.

Itália perfeita

França? Perfeita.

Croácia mais que perfeita!

Marrocos

Bali

Índia

Missão cumprida, Soludos!

Conquistada!

Se não tivesse noção do que está a acontecer-me, ia já endividar-me, calçar Soludos e calcorrear, glamourosamente… Estremoz!

 

 


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Simplicidade

Ontem, falava acerca do universo masculino e desta minha tendência recente de sentir-me cada vez melhor entre mulheres.

Se há um lado fútil em mim que só outra mulher compreende (e muitos outros aspectos profundos da vida, bem entendido),

admiro a sobriedade e o desprendimento que a maior parte dos homens adopta no seu vestuário.

É mesmo uma das características masculinas que muito admiro… eu, a Madame Rococó.

Excesso de padrões e bijuteria e cor desviam-me do essencial.

E eu sou facilmente desviada…

Sobriedade é uma palavra que soa a ser adulto, sensato, elegante, requintado e bem comportado.

Talvez já seja tempo de eu reunir algumas dessas belas características e me afastar dos enfeites e berloques.

É preocupante o que o exterior diz acerca do que nos vai na alma.

Quanto a mim, disperso-me muito e falta-me a visão de conjunto.

E como é importante focar!

Imagens muito sóbrias do Pinterest.

 

 


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Atitude

Já se sabe que o que é preciso é ter estilo e que o preço daquilo que vestimos pouco importa e blablabla…

Com a idade, a tendência para me aburguesar cresceu ao ritmo dos meus cabelos brancos: menos é mais e de preferência que este menos seja original e de qualidade. Ora, hoje, num mercado de roupa cada vez mais barata mas mais indiferenciada, estas duas características pagam-se.

Por razões de vaidade, mas também ecológicas, prefiro uma peça que dure vários anos do que duas que acabam miseráveis no final da estação.

Andava eu mais madura nas minhas compras, quando descobri o blog da actriz Carola Pojer e fiquei com a cabeça a andar à roda: tem mesmo muito estilo e veste, com muita atitude, este macacão da Zara e brincos Mango.

O blog dela é muito inspirador; e deitou por terra a minha teoria que levou anos a construir!

Volta Zara, estás perdoada!

Nesta foto: top Mango e saia Zara!

O top já mora cá em casa…

Não sou nada influenciável!