“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Boleima Rápida da Avó

No dia em que as queridas Anas fizeram a boleima de Castelo de Vide, falei da boleima da avó Silvana.

É uma versão mais rápida e simples da boleima, mas muito boa.

Ingredientes:

1 copo de leite

1 copo de óleo

4 copos de farinha com fermento

1 pitada de sal

500g de maçãs

açúcar amarelo e canela

Amassam-se todos os ingredientes muito bem e divide-se a massa em duas partes iguais.

Estende-se com o rolo metade da massa e cobre-se o fundo do tabuleiro.

Polvilha-se com açúcar e canela.

Cobre-se com as maçãs  cortadas em fatias e polvilha-se com mais açúcar e canela.

Coloca-se por cima a outra metade da massa já esticada com o rolo.

Polvilha-se novamente com açúcar e canela.

Antes de ir ao forno, conta-se com uma faca bem afiada; dão-se golpes até ao fundo do tabuleiros de forma a formar muitos quadrados.

Coze em forno moderado.

É fácil de fazer e é absolutamente deliciosa!


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Flores e andorinhas

A vida podia ser só assim…

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Com passarinhos a soltarem-se dos nossos dedos…

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E nós com eles, até nos crescerem asas.

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Mas há o mundo, há os outros e… existimos nós, com as nossas incoerências, conflitos, hormonas, aspirações e cobardias.

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Há alturas de lutar e alturas de pacificar.

Com a idade, fui pacificando cada vez mais, ou melhor, fui escolhendo as minhas lutas com mais parcimónia e lucidez.

A minha energia é preciosa.

Abomino perder tempo com grelhas, planificações, declarações, autorizações e papelões inúteis, em vez de mergulhar em literatura ou ajudar quem posso (verdadeiros objetivos da minha profissão), mas agora apenas faço um esgar de desagrado e tento ser uma “profissional cumpridora”.

Indigno-me com o exercício dos pequenos poderes por pessoas igualmente pequenas, mas agora digo palavrões em silêncio e viro costas.

Não suporto o cheiro a mofo das convenções, preconceitos e aparências, mas agora, a menos que essas pérolas estejam a ser exercidas, afasto-me a sete pés de conversas estupidificantes.

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Assim, enquanto posso, refugio-me no meu mundo, onde só entra quem for como eu, verdadeiro apreciador de flores e andorinhas.

Ilustração Dominique Fortin


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Cool Lemonade

Sheila é a autora do blog mais cool que conheço, o Cool Lemonade.

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O tempo aqueceu e eu só me lembro da Sheila, cheia de cor e de estilo e com um ar tão fresco e bronzeado.

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No Inverno, não me identifico com o estilo dela, mas no Verão vestiria qualquer um destes outfits com todo o prazer.

E este sorriso, também.

Dou por mim, pálida, carrancuda e a suspirar vezes demais.

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A minha rotina

A Lunna desafiou-me a publicar 6 fotografias, subordinadas a um tema, no sexto dia de cada mês.

O tema de Maio é “A minha rotina”.

Eu fiquei a pensar que a maior parte dos dias é rotineira, sem dúvida, e que, embora me queixe disso frequentemente, a minha rotina dá-me serenidade.

No entanto, subvalorizo-a e nem tenho fotografias dos momentos que se repetem.

Valorizo-os apenas quando, por algum imprevisto, os perco e aí, sim, percebo como são importantes e me estruturam.

9:00h- Percurso até à escola; 40 km pelo melhor Alentejo.

9:30h- Nos dias muito bons, há diálogos à volta da melhor literatura portuguesa, com jovens bonitos.

15:00h- Há momentos felizes com amigas colegas de trabalho; as mesmas que nos dão presentes com os super-poderes da Amizade.

18:30h- Nos dias perfeitos, ainda consigo chegar a casa com energia para entrar no mundo dos unicórnios e animais falantes…

 

22:30H- Tempo para me reencontrar.

E, com sorte, mergulhar na Literatura antes de adormecer.

Bacio, Lunna!


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Be

Elvas, 2017

Exercício do dia:

-Cada um vai perspectivar-se no futuro: daqui a 7 anos como é que gostariam que fosse a vossa vida? Os sonhos não têm limites, certo?

Respostas entre o “certinho” e o “louquinho” que me encheram de alegria… excepto num dos grupos de 25 jovens.

Neste grupo, 23 disseram: trabalhar, casar e ter filhos.

Nada contra o plano, a minha filha foi o melhor que me aconteceu e adoro o meu trabalho… mas de corações a bater há 18 anos esperava mais irreverência.

Preocupa-me o facto desta resposta reflectir uma vontade genuína (e se for isso encantada da vida!) ou se reflecte falta de alternativa, falta de ambição e falta de capacidade de sonhar.

Nesse caso, preocupa-me que, de alguma forma, os sonhos estejam a ser roubados aos jovens desta geração.

Numa Europa assustada e militarizada, num mundo inseguro, por onde proliferam a miséria material e a de espírito, nesta ditadura da produtividade e do individualismo, projectos como “dar a volta ao mundo”, “fazer voluntariado em África”,  “trabalhar noutro país”, “viver com todos os meus amigos num prédio”, “criar uma associação para salvar animais”, “fazer parte da equipa que vai descobrir/curar/inventar…”; “adoptar uma criança”  não se ouvem.

Parece que ninguém quer sobressair.

Mas o que será de nós se ninguém perseguir utopias?

O que será de cada jovem que negar a sua vontade reprimida de engolir o mundo?

Talvez seja uma das ideias mais importantes que tento transmitir aos meus alunos.

Uma ideia nem sempre fácil de transmitir e que, ultimamente, tem-me feito sentir estranhamente subversiva.

 


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Extracto de um diálogo

“-Tenho saudades de minha casa, lá na Itália.

-Também eu gostava de ter um lugarzinho meu, onde pudesse chegar e me aconchegar.

-Não tem, Ana?

-Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.

-Como não?

-Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.”

O último voo do flamingo, Mia Couto

O facto de eu e a personagem feminina termos o mesmo nome não é pura coincidência.

“Aquela casa era a sua nação. As dimensões dessa nação não cabiam em mapa métrico. Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior do que o mundo.”

Venenos de Deus Remédios do Diabo, Mia Couto

 


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Cru

Os poetas modernistas são de uma crueza impressionante;

uma crueza bem distante do peso da vida em que vivem, felizmente, a maior parte dos adolescentes.

Às vezes, sinto-me uma quebra-sonhos, às voltas com a dureza e o desencanto de poemas tão profundos, mas tão negros.

E lamento que, no correr do “programa a cumprir porque pode sair no Exame”, falte tempo para ler os poemas luminosos dos poetas modernistas.

mario-de-sa-carneiro

Não sendo o poema que se segue propriamente optimista, mostra um lado de Mário de Sá-Carneiro sarcático e bem-humorado.

E quem é que, depois dos 40 anos, não tem dias tão secos e esfarelados que sente na boca cada palavra desta “Serradura”?

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro, Paris, Setembro 1915

Um poema intenso mas incompreensível aos olhos de almas de 17 anos (ainda bem!).

É preciso viver para interpretar.

A crueza das palavras reflete a agudeza das emoções do poeta:

sete meses depois de ter escrito este poema, Mário de Sá-Carneiro deixa mesmo a sua vida num quarto de hotel em Paris, aos 26 anos.

Faz hoje 101 anos.