“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Yuval Harari

Yuval Noah Harari, professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu, em 2011, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade.

Dez anos depois, escreveu Homo Deus – História Breve do Amanhã e foi entrevistado por João Céu e Silva.

Nesta entrevista, Yuval Harari não apresenta ideias absolutamente inéditas, nem geniais, mas nestas semanas de campanha alienação eleitoral (em que interiorizei o significado da expressão “vergonha alheia”), ouvir frases conscientes e lúcidas é um bálsamo precioso.

A fome na Terra resulta da ganância humana

“Ainda há milhares de milhões de pessoas pobres no mundo que sofrem de desnutrição e doenças, mas as fomes em massa estão a tornar-se raras. No passado, de tantos em tantos anos havia secas ou inundações, ou outro tipo qualquer de catástrofe natural, a produção de alimentos caía a pique e milhões de pessoas morriam à fome. Atualmente, a humanidade produz tanta comida e consegue transportá-la tão rapidamente e de forma tão barata que os desastres naturais nunca resultam, por si próprios, em fome em massa. Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política. Se as pessoas ainda morrem de fome na Síria, no Sudão ou na Coreia do Norte é apenas porque alguns governos assim o desejam.”

A doença do mundo ocidental resulta da fartura

De facto, na maioria dos países, hoje, comer demais tornou-se um problema muito pior do que a fome.

O açúcar é a droga dos pobres

“No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos, os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas. Em 2014, mais de 2100 milhões de pessoas tinham excesso de peso, contra 850 milhões que sofriam de desnutrição. Calcula-se que em 2030 metade da humanidade sofra de excesso de peso. Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões. […] O açúcar é hoje mais perigoso do que a pólvora.”

O passado permite-nos ver “futuros”

Não estou certo de que o objetivo do estudo da História seja aprender lições práticas. Na minha opinião, devemos estudar a História não para aprender com o passado, mas para nos libertarmos dele. Cada um de nós nasce num mundo particular, governado por um sistema particular de normas e valores, e uma determinada ordem económica e política. Como nascemos nele, tomamos a realidade circundante como natural e inevitável, e tendemos a pensar que a maneira como as pessoas hoje vivem as suas vidas é a única possível. Raramente nos damos conta de que o mundo que conhecemos é o resultado acidental de acontecimentos históricos aleatórios que condicionam não só a nossa tecnologia, política e economia, mas até mesmo a maneira como pensamos e sonhamos. É assim que o passado nos agarra pela parte de trás da cabeça, e vira o nosso olhar para um único futuro possível. Sentimos o aperto do passado desde que nascemos, por isso nem sequer nos apercebemos dele. O estudo da História visa reduzir esse aperto e permitir-nos virar a nossa cabeça mais livremente, pensar de maneira diferente e ver muitos mais futuros possíveis.

Se não conhecermos a História, facilmente confundimos os seus acidentes com a nossa verdadeira essência.

A História permite-nos encontrar a nossa verdade

Por exemplo, pensamos em nós mesmos como pertencendo a uma determinada nação, como Israel ou a Coreia; acreditamos numa certa religião; vemo-nos como indivíduos; acreditamos que temos certos direitos naturais. […] No entanto, o nacionalismo, o individualismo, os direitos humanos e a maioria das religiões são desenvolvimentos recentes. Antes do séc. XVIII, o nacionalismo era uma força bastante fraca, e a maioria das nações de hoje não tem mais de um século de existência. O indivíduo foi criado pelo estado e pelo mercado modernos, na sua luta para quebrar o poder das famílias e comunidades tradicionais. […]

A maioria das religiões que conhecemos hoje nasceu apenas nos últimos dois ou três mil anos e sofreu profundas mudanças nos últimos séculos. O judaísmo ou o cristianismo de hoje são muito diferentes do que eram há 2000 anos. Não são verdades eternas, mas criações humanas. Algumas dessas criações podem ter sido muito benéficas, é claro, mas para conhecer a verdade sobre nós mesmos precisamos ir além de todas essas criações humanas. É por isso que a História me interessa tanto. Eu quero conhecer a História, para poder ir além dela e entender a verdade que não é o resultado de acontecimentos históricos aleatórios.

Os entretítulos são meus.

As fotografias são de Brian Oldham.


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Portrait

A propósito de sensibilidade e da ténue linha que separa a delicadeza (que nos conserva humanos) e a falta de esperança crónica (próxima dos estados depressivos), surgiu-me Anne Sexton, uma poeta norte-americana (1928-1974), que sofreu alguns colapsos psíquicos.

 Felizmente, em 1955, conheceu o médico Martin Theodore Orne, terapeuta que a encorajou a escrever poesia, como forma de mitigar a imaginação transbordante e a invulgar sensibilidade poética.

Boas prescrições médicas, por certo, mas a vida sobrecarregava-a com deveres domésticos, modelos femininos arcaicos, drogas e álcool. Reservou-lhe, finalmente, o Prémio Pulitzer, em 1967.

Este excerto do poema “Frágil Fio”, foi publicado no Instagram de Raquel Marinho.

Fico sempre espantada com a forma aparentemente simples como um poeta coloca em evidência verdades universais.

“Como já se disse:
O amor e a tosse
não podem ser disfarçados.
Nem mesmo uma pequena tosse.
Nem mesmo um pequeno amor.”

“Portrait of a heart” é um quadro do artista austríaco Christian Schloe.

Manter assim o coração é muito cansativo, mas deixá-lo apagar é trágico.


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Novelos

Com a idade fui ficando mais susceptível:

um filme dramático pode arrasar o meu ânimo,

uma criança atriz arrasta-me num pranto e um policial sangrento angustia-me.

Pelo mesmo motivo, reportagens e documentários têm de ser tomados em doses homeopáticas.

O reverso dessa sensibilidade crescente é que um sorriso, um abraço, uma música, um verso ou um livro são igualmente poderosos.

O livro O Infinito num Junco, de Irene Vallejo, teve um efeito terapêutico, numa fase mais descrente que eu atravessava.

Ler acerca da invenção do objeto infinito e salvador que é o livro restitui-me alguma fé na humanidade.

Neste pequeno vídeo, a autora revela a sua grande surpresa: depois da longa investigação que fez, ficou admirada com o papel desempenhado pelas mulheres no processo da criação da literatura. Constantemente silenciadas, elas foram, todavia, as primeiras narradoras da História (não obstante todos os obstáculos físicos e sociais edificados à sua volta).

Ninguém registou, mas por milénios foram elas que contaram histórias aos filhos e aos familiares, enquanto cos/ziam, tratavam dos bebés ou limpavam a casa.

A comprovar este papel ignorado, Irene Vallejo realça o facto de haver tantos vocábulos em comum entre os textos e os têxteis:

  • o fio da narrativa, o novelo da história, a trama, a urdidura da história, o desenlace da ação, entremear o discurso ou urdir um trama.

Pergunta Irene: “O que é para nós um texto a não ser um conjunto de fios verbais atados?”

Nunca tinha pensado nestas coincidências vocabulares e considero este levantamento de expressões deveras intrigante. Na verdade, tendo as mulheres diferenças estruturais no cérebro relacionadas com a sua extraordinária competência linguística, tal facto nem deveria surpreender-me.

No entanto, como, ao longo dos últimos séculos, aprendemos a valorizar apenas o que está escrito, esse papel literário da mulher esfumou-se. Evidentemente, nesse mundo misógino da escrita, as mulheres foram, durante muitos séculos, impedidas de entrar.

Felizmente, a literatura oral é perseverante e, muito antes do registo escrito, reinou um poderoso património de partilha de experiências, das mais fantásticas ficções e emoções (vividas ou sonhadas) que nos cinzelou, sem dúvida, enquanto humanidade.

As autoras desse fabuloso império foram, sem dúvida, as mães e avós da História.

Outro facto que me deixou completamente estupefacta é que, apesar das restrições, “o primeiro autor do mundo que assina um texto com o próprio nome é uma mulher.

Mil e quinhentos anos antes de Homero, Enheduana, poeta e sacerdotisa, escreveu um conjunto de hinos cujos ecos ainda se ouvem nos salmos da Bíblia. Rubricou-os com orgulho. Era filha do rei Sargão da Acádia, que unificou a Mesopotâmia central e meridional num grande império[…] Também são suas as mais antigas notações astronómicas. Poderosa e audaciosa, atreveu-se a participar na agitada luta política da sua época, e por isso sofreu o castigo do exílio e a sua nostalgia.”

A propósito de sensibilidades, há um programa protector de almas vulneráveis imperdível na RTP2: “Volta ao Mundo em Cem Livros”, de Alexandra Lucas Coelho.

No primeiro episódio, a voz serena de Alexandra fala de quem?

Precisamente de Enheduana.

https://www.rtp.pt/play/p9507/e579261/volta-ao-mundo-em-cem-livros

Por vezes, o Universo alinha-se de forma a mostrar-nos do que somos capazes!

Enquanto mulheres e enquanto Humanidade!


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A escolha de Ulisses

A escolha de Aquiles marcou a minha juventude, mas já na idade adulta passou a fascinar-me muito mais a escolha de Ulisses.

Ulisses encalha na ilha da perfeita Calipso e mantém-se no limite da encruzilhada dilemática durante sete anos.

Não se pode dizer que tivesse sido um homem especialmente indeciso, mas há escolhas francamente difíceis.

Calipso apresenta-lhe o dilema:

Ulisses pode viver idilicamente, fazer amor com uma deusa e manter-se eternamente jovem e imortal, numa vida sem sobressaltos e prazerosa;

Ou Ulisses pode regressar à Penélope menopáusica, a um filho adolescente e a um pai decrépito.

Após sete anos irresolutos, Ulisses despede-se, finalmente, da sua ninfa:

“Deusa, não te zangues comigo. Sei muito bem que Penélope é inferior a ti, mas ainda assim desejo ir para a minha casa e ver o dia do regresso. Se algum dos deuses me maltratar no mar vermelho como o vinho, suportá-lo-ei pacientemente.”

E zarpou da ilha, feliz por abrir as velas ao vento.

O sábio Ulisses prefere a vida humana, imperfeita, humilde e efémera, mas real, a viver uma miragem alucinógena, tão monótona quanto superficial.

Nos dias em que estou cansada, não teria a coragem de Ulisses e cairia nos braços da deusa da ilha.

Nos dias em que consigo ser lúcida, beijaria Calipso durante um fim de semana e correria, no Domingo, para casa.

Mais uma vez, foi o incrível livro da Irene Vallejo, O Infinito num Junco que me fez repensar as escolhas da vida de Ulisses e de todas as vidas humanas.

O quadro é de Richard Westall (1765-1836), “Telemachus landing on the isle of Calypso”.


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A escolha de Aquiles

Algures no milénio passado, uma miúda tímida frequentava a Faculdade de Letras de Coimbra.

Numa manhã fria de Fevereiro, numa inquietante prova de História da Cultura Clássica, essa pupila esteve durante duas horas perante uma folha A4 com as seguintes palavras:

1- “A escolha de Aquiles”.

As pistas para a pretendida reflexão estavam sugeridas numa das inúmeras anotações de rodapé do livro da nossa professora, Helena da Rocha Pereira. Fomos a sua última turma.

Lembro-me da indignação geral no final da prova, mas também me recordo do fascínio que Aquiles exercia sobre mim.

Talvez devido ao meu carácter inseguro de então, eu fixara bem a encruzilhada do herói.

A sua mãe, Tétis, tinha sido peremptória:

ou Aquiles iria guerrear em Tróia e tornar-se mítico, mas pagar a glória com uma violenta morte prematura;

ou Aquiles ficaria na doce vida doméstica a envelhecer serenamente, mas condenado ao anonimato.

Para Aquiles não houve dilema.

Ele nascera para a heroicidade.

Aos vinte anos, esta promessa de fama, ainda que com um revés fatal, é muito sedutora.

Irene Vallejo, num dos livros mais incríveis que li na vida, O Infinito num Junco, refere que não seríamos os mesmos sem Aquiles e sem a Ilíada de Homero.

Eu não teria sido.

Mas bem mais importante para a história e cultura do Ocidente, Alexandre, o Grande, também não teria sido.

O jovem conquistador era obcecado por Aquiles e guardava os 15 000 versos da Ilíada como o seu maior tesouro, enquanto construia, sanguinariamente, um império global. Alexandre sonhava com um mundo mestiço, universal e culto.

Na verdade, a cultura ocidental não teria sido a mesma sem este macedónio megalómano, rapidamente adoptado pelos gregos e primeiro responsável pela difusão e domínio da cultura grega.

“Desde a Anatólia até às portas da Índia, no mundo helenístico expandido e mestiço, ser grego deixou de ser uma questão de nascimento ou de genética, tinha muito mais que ver com amar os poemas homéricos.”

“Numa sociedade que nunca teve livros sagrados, a Ilíada e a Odisseia eram o mais parecido com a Bíblia.”

No vasto mundo helénico, quantas gerações de adolescentes não terão crescido a ler ou a ouvir declamar Homero?

Não terá chegado parte desse filão até aos nossos dias?

Duas palavras que caracterizam a adolescência foram há milénios registadas:

  • “A língua grega tem uma palavra para descrever a sua [de Alexandre… ou de qualquer jovem] obsessão: póthos. É o desejo do ausente ou do inalcançável, um desejo que faz sofrer porque é impossível de acalmar. Nomeia o desassossego dos apaixonados não correspondidos e também a angústia do luto […]”.
  • Cólera” é a primeira palavra da Ilíada.

Conclusão: Na juventude, somos todos netos de Aquiles, até aqueles que não leram Homero.

Imagem: quadro de Tétis tentando tornar Aquiles imortal.


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Inquietação

A inquietação é o poderoso motor da evolução e da criação humanas.

É a condição da nossa existência, o sinal da nossa consciência da vida.

No entanto, se em excesso, para os comuns mortais, a inquietação deixa de ser criadora e torna-se paralisante, ao transformar-se em angústia permanente.

Eu sou um comum mortal.

O estado ansioso, na verdade, liga-se à previsão de futuro apenas presente nos animais racionais: quando esquecemos o “carpe diem”, surge o desassossego, a dúvida, a interrogação e a mudança transformadora.

No último Original é a Cultura – SIC, o tema foi a Inquietação.

Dulce Maria Cardoso refere, no final, a inquietação mais menosprezada pela sociedade: aquela provocada pelo desgosto amoroso.

De forma bem-humorada mas muito séria, a escritora defende, com toda a legitimidade, a baixa por desgosto de amor.

Num dos episódios Os Herdeiros de Saramago -RTP, valter hugo mãe alerta para o antídoto mais eficaz contra os efeitos nefastos da inquietação: a amizade.

Sugere, com a sagacidade aparentemente ligeira que o caracteriza, que devia haver uma lei que proteja as amizades como há leis que protegem os cônjuges.

A distância geográfica voluntária dos amigos devia ser, inclusivamente, taxada: o amigo que se ausenta tem obrigação de indemnizar quem fica para trás, através de uma pensão que compense o abandono. Em alternativa a este imposto, os amigos poderiam sempre ser presos e nós iríamos visitá-los a uma cadeia perto de casa e levar-lhes bolachas amororsas.

Rendi-me a esta ideia!

No final do programa moderado por Cristina Ovídio, Rui Vieira Nery sugeriu “I Cover the Waterfront”, uma música digna de quatro semanas de baixa, interpretada pela diva do desencontro amoroso, Billie Holiday.


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Winter 2021/22

Estamos no último trimestre de 2021 e já é válido que comecemos a fazer balanços:

Superei com muita distinção o desafio a que me propus no início do ano: reduzi o meu vício consumista… o que não significa que se tenha extinguido a vaidade.

Tomei, apenas, consciência de que tenho muita roupa e, portanto, posso tratar de fazer 1000 conjugações que andarei sempre com um look novo até ao ano 2100.

Depois de dois invernos em casa e de alguns desvarios nas compras online, para compensar insensatamente a frustração do isolamento, chegou a hora de enfrentar o Outono e de procurar algumas inspirações.

Gosto sempre de procurar modelitos de street style, o que faz ainda mais sentido agora, uma vez que saímos da redoma.

Num estilo mais sóbrio e neutro:

Ou com mais cor e diversão:

Ou…

Pára tudo!

Quem são estes dois fenómenos?

OLIVIA on Twitter: "sarah linh tran and christophe lemaire… "

Christophe Lemaire & Sarah-Linh Tran, criadores da LEMAIRE!

Totalmente inspiradores!


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Labaredem-se

Prometeu foi um importante “benfeitor da humanidade”:

roubou algumas sementes de fogo à roda do Sol e levou-as para Terra, escondidas num caule de férula.

Zeus puniu-nos com uma terrível criatura forjada para o efeito, Pandora.

Prometeu não ficou muito melhor: foi preso com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e uma águia devorou-lhe o fígado que se ia renovando incessantemente.

O mito podia terminar aqui, mas não é verdade.

Héracles passou pelo Cáucaso e trepassou com uma flecha a águia de Prometeu.

Nós ficámos com a Pandora e a maldita caixa, mas já não nos tiraram o fogo.

É desse fogo que nascem as metáforas.

Como esta da Cláudia R. Sampaio.

Resta-nos honrar Prometeu e os Poetas:

labaredemo-nos, então!

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre


Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha


Sempre me recusei a arder como os outros


Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!


Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio


E no fim são todos cinza

(O mito de Prometeu foi retirado do fascinante Dicionário da Mitologia, de Pierre Grimal)


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Sementes

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.”

(final do poema “O Minotauro”, de Sophia de Mello Breyner)

Atravessámos quase dois anos de pandemia e não aprendemos o que é realmente importante.

Houve palmas para os médicos e enfermeiros, mas não se melhoraram as condições de trabalho destas profissões. Reconheceu-se o papel do sector cultural, durante os confinamentos, mas continua a precariedade no sector. Realçou-se o desempenho dos professores, mas prolifera a desvalorização social e política da profissão.

Não evoluiremos, enquanto não percebermos que a saúde, a justiça, a arte e o conhecimento são os verdadeiros pilares de um povo. Já que não brilhamos com euros ou dólares nos bolsos, poderíamos apostar na luminescência espiritual…

Vivemos na vertigem da rapidez e da mudança; só interessa o que flui ou telinta.

A comunicação seguiu a tendência e privilegia o emoji e a imagem.

A palavra, que nos distingue enquanto espécie, exige tempo e concentração e não temos nem um, nem outra.

Para contrariar esta perversidade, é primordial ensinar a fruir o tempo livre, assim como é essencial treinar a capacidade de concentração e educar para a empatia e para a gestão das emoções.

Ser professor é uma nobre profissão: é ao professor que compete a reponsabilidade de recolocar o foco da sociedade na palavra. Os professores são, por princípio, os guardiões da palavra (falada e escrita).

O início dos séculos e dos milénios são sempre conturbados e, no início do nosso, criou-se alguma confusão em relação à função do professor.

Criou-se o jargão retórico de que o professor do século XXI devia ser jovial, sintético e multimédia.

O discurso e o diálogo ficavam, definitivamente, no século XX.

Felizmente, acima das modas barrocas, está a nossa ancestralidade cultural e a palavra está connosco desde o início; é a ela que instintivamente recorremos quando tudo é incerto e rui.

Está provado que, perante a avalanche tecnológica, a solidão aumenta proporcionalmente, assim como a depressão. Não aprendemos a escutar, mas temos uma necessidade premente de sermos ouvidos.

Educar para a escuta ativa, para a reflexão e para a palavra: são estes os verdadeiros lemas desta professora do século XXI. A multimédia é apenas uma excelente ferramenta para chegar a este fim.

Eugénio de Andrade fala nos guardiões de sementes:

“Que fizeste das palavras?
Que contas darás dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e do sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?”

O Original é a Cultura regressou e o episódio da rentrée foi precisamente dedicado aos professores.

Fotografia de Brian Oldham.


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Mar nas veias

Mundo redondo, tenho o mar nas veias.

E no mar há sereias.”

Miguel Torga, transmontano, é mais conhecido pelas temáticas telúricas, mas é um poeta da Natureza e, como tal, sensível ao mar.

A ideia de ter o mar nas veias e toda a sua flora e fauna é muito tranquilizante.

Significa que o mar caminha comigo para onde quer que eu vá.

É uma ideia muito apaziguadora, sobretudo porque passo grande parte do ano tão longe deste universo.

Quanto à mais bela sereia do mar, cujo aquário transportei durante nove meses, está sempre comigo.

Também na costa, há plantas aromáticas e foi com elas que recuperei a disponibilidade para as flores, num caloroso almoço familiar.

Neste fim de semana, voltei à minha cidade e estou a tentar repor o meu stock de amizade, abraços, teatro e maresia.

Para passar o resto do ano a flutuar… ou a voar.