“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Amor oblativo

Nikki Mcclure

Numa entrevista de Mário Cordeiro, li acerca dos vários níveis de afeto;

li acerca dos destinatários dos afectos que, por vezes, usamos de forma indiferenciada –   gostar/adorar/amar.

Segundo Mário Cordeiro,

-gostamos de coisas,

-adoramos deuses,

-amamos pessoas.

No meio das pessoas que amamos que cruzam o nosso caminho, há aquelas a quem dedicamos um tipo de amor: o amor oblativo – um amor que cresce, que se manifesta e se entrega, sem condições.

Esse amor só o senti, verdadeiramente, quando conheci a Beatriz.

 

Um dia, uma amiga, com olheiras e sem artifícios, no meio de uma conversa que tentávamos ter, com gritinhos especialmente embirrantes dos nossos filhos, disse-me:

-é preciso amar muito para conseguir suportar alguns dias e chegar ao fim com sanidade.

É preciso, sim; é preciso um amor oblativo!

A imagem, de Nikki McClure, reflete aqueles momentos raros que nos carregam as baterias da resistência por semanas!

Pronto, aqueles momentos que, antes de termos filhos, pensamos que preenchem todos os nossos dias…

 

 

 


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Solidez

A infelicidade sofisticada é inútil.

Suja-nos e impede-nos de crescer.

 

A outra infelicidade, a incontornável, poderá permitir-nos evoluir ou encontrar espaços dentro de nós que, até aí, desconhecíamos.

Poderá ajudar-nos a encontrar a solidez de que precisamos enquanto seres humanos, porque “já aí estivemos”, porque “já passámos por isso”, porque sabemos que, por vezes, a vida é dura.

Poderá ajudar-nos a encontrar o verdadeiro sentido da palavra solidariedade:

do latim “solidare”, que significa, etimologicamente, “solidificar”, “confirmar”.

A origem é a mesma do adjetivo “sólido”:  “que tem consistência, que não é oco, que não se deixa destruir facilmente”.

Não será esse o objectivo da nossa vida?

 

Os artistas, os escritores, os realizadores, criam muitas vezes a partir de momentos difíceis e fazem a sua catarse com as obras de arte.

E nós, através dessas obras, experienciamos os mais terríveis cenários na segurança da nossa poltrona.

É esse também o poder da Arte: levar-nos ao inferno com cinto de segurança.

 

A outra infelicidade, a negra, provocada pela doença ou morte ou perda ou guerra ou fome não devia existir.

Julia Pott e um Universo onde apetece viver por algum tempo, totalmente feliz, em versão lobita, claro!

Julia Pott Accidentally

Julia Pott Alive

Julia Pott Words

Mais no site.


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Cheesecake de Inverno

Cheesecake cozido

A versão de Inverno do Cheesecake:

Acho que cada pessoa tem a sobremesa que resulta sempre e que vai sendo identificada como “a sobremesa de…”.

Ao que parece a minha é esta.

Com muito gosto!

Base:

300g de bolachas de aveia (às vezes, bolachas sem açúcar)

100g de manteiga sem sal (e um pouco de leite se necessário)

Recheio:

2 ovos +1 gema

80g açúcar mascavado

1 pacotinho de açúcar baunilhado

250g mascarpone

250 queijo fresco para barrar light

1/2 sumo de limão

2 colheres de sopa de amido de milho

5g de sal fino

1,5 dl de creme de soja

Decoração:

framboesas, morangos e mirtilos (muitos)

Açúcar

Base:

-Desfazer as bolachas e misturar bem com a manteiga derretida. Calcar numa forma redonda forrada com papel vegetal. Colocar no congelador 30 minutos.

Recheio:

-Bater os ovos com o açúcar até ficar com uma mistura cremosa.

-Adicionar os queijos e voltar a bater.

-Juntar o sumo de limão, o amido, o sal e o creme de soja e mexer bem.

-Colocar o creme por cima da massa de bolacha e levar ao forno por 30minutos a 180ºC. Deixar mais 30 minutos a 160ºC.

– Deixar arrefecer antes de desenformar.

Decoração:

-Cozer morangos com metade do seu peso de açúcar até obter uma compota leve.

-Cobrir o cheesecake com esta compota, depois desta arrefecer.

-Decorar com frutos vermelhos.


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A nossa infelicidade é burguesa

Hoje o dia foi igual aos outros…

O meu colega de trabalho é presunçoso.

Ai, a Beatriz anda a comer doces.

Sem ler, começo a ficar pouco inteligente.

A L. é culta e tão assertiva.

A entrar nos 40 já devia ganhar o dobro e ter reconhecimento, pelo menos, nacional.

A minha barriga nunca mais ficou a mesma depois da gravidez.

Havia de ir duas vezes por semana ao ginásio.

 

São as preocupações tão sérias que às vezes me perturbam o espírito.

Preocupações que em vez de o elevarem e lhe recordarem que pertence ao céu, o prendem à terra.

 

Preocupações de quem tem um dia rotinado.

Preocupações de quem se pode afastar perfeitamente dos homens que não a respeitam.

Preocupações de quem tem uma oferta demasiado grande de alimentos para colocar no prato da filha e no seu próprio prato.

Preocupações de quem tem dinheiro para livros e excelentes bibliotecas à disposição.

Preocupações de quem tem um trabalho que lhe permite viver condignamente e em que pode, por vezes, efectivamente, fazer a diferença.

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Inês Pedrosa, neste artigo, fala deste nosso culto civilizado de suspirarmos tristes e insatisfeitos.

Hoje em dia, se respondemos “Estou óptimo!” temos de ser meio-tontos ou insensíveis ou lunáticos.

Afinal se não controlamos tudo, não podemos tudo, não temos tudo… como podemos estar felizes?

A escritora descreve a lição dada por um professor de ex-meninos soldados:

“No fim de uma aula no mato – com a terra como caderno e pauzinhos de árvores como lápis – , um professor descalço veio oferecer-nos um pé de laranjeira, dizendo, num sorriso radioso:

«Para vos dar felicidade».

Entendi naquele instante que a douta e talentosa Yourcenar não tinha razão: não, a felicidade não é um sub-produto; só quem a tem nas mãos (casa, comida, paz, livros, adulações) pode divertir-se a despedaçá-la, com uma ferocidade infantil.

O professor descalço de Moçambique sabia isso. Aprendera o valor de estar vivo e de partilhar o seu conhecimento com garotos regressados do inferno terrestre. Aprendera a saborear o prazer de uma laranja. E não sofria da infelicidade sofisticada de que terá sofrido o misterioso Shakespeare (que completa em Abril 400 anos) e de que sofremos todos nós, os ungidos pela civilização do dinheiro, da fama e do espectáculo: a de invejarmos ou sermos invejados.”

Lembrete:

“Mas já é tempo de deixarmos de reverenciar a desgraça enquanto sinal exterior de inteligência:

não há nada tão burguês, confortável e conveniente como o culto organizado da infelicidade. ”

Imagem : a perseguir balões de ar, quando a perfeição das plantas está ao nosso alcance…

 

 

 


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Quando a mãe era pequena

Quando a mãe era pequena veio connosco da Biblioteca.

Tal como as personagens do livro, sentei a filha no colo, já na cama, e peguei no mote.

Quando a mãe era pequena capa

Pensando bem, nunca tinha falado muito da minha infância com a Beatriz… tão centrada que ando na infância dela… o que não significa que não pense na minha: mais ou menos conscientemente, quando tento reproduzir o que me fez bem ou evitar a todo o custo o que me fez mal.

Cada página é motivo de tantas perguntas por parte da Beatriz que é evidente que há uma grande curiosidade à volta da Mãe menina que já foi bebé. Foi há tanto tempo que quase me esqueci!

E este livro foi um bom reencontro.

Com a menina que não gostava de atender o telefone.

Quando a mãe era pequena telefone

Com a menina que gostava de escrever na máquina verde do Pai.

Quando a mãe era pequena máquina de escrever

Com os irmãos que adoravam o gira-discos mas que partiam as agulhas amiúde e se calavam, tão cúmplices como quando ficavam sossegados e sozinhos a ouvir os velhos LP´s.

Quando a mãe era pequena gira discos

Escrito por Joana Cabral e ilustrado por Margarida Teixeira.

Da editora Máquina de Voar.

Imperdível é também o blog da Joana Cabral, Menina Rapaz!

 

 

 


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Corpo

Posso usar baton e ser feminista?

Posso usar vestidos com florinhas e ser feminista?

Será que se quero ser levada “a sério”, na profissão e na vida, tenho de andar vestida discretamente e ter uma aparência despojada, sóbria e discreta (ou seja, parecer-me com um homem de roupas cinzentonas!)?

E, já agora, só posso discutir questões existenciais e determinantes para o funcionamento do Universo?

“Porque é que, depois de não terem sido mais do que corpos, as mulheres devem viver hoje como se não tivessem um corpo?” (Camille Froidevaux-Metterie)

É uma questão sentida entre profissionais que tentam ser reconhecidas em profissões tradicionalmente desempenhadas por homens (como a arquitectura, administração, política), mas também sentida no dia-a-dia.

Parece que se damos importância à aparência e somos vaidosas somos, necessariamente, meias tontas e só queremos seduzir o sexo oposto… ou seja, perdemos crédito para nos afirmarmos e exigirmos igual tratamento.

A discriminação está presente nas mais subtis nuances.

 

Não me lembro da minha Mãe me ter feito discursos feministas quando eu era criança, nem me lembro do meu Pai cozinhar ou lavar a louça. Mas a minha Mãe educou-nos sem fazer distinções entre o filho e a filha: a partir de certa idade, o meu irmão lavava a louça do almoço e eu lavava a do jantar.

Eu cresci a pensar que era assim em todas as casas.

Imaginem o choque quando percebi que há casas em que os filhos (e os maridos) só entram na cozinha para se sentarem à mesa…

Ou a perplexidade que senti quando me apercebi que havia uma confusão entre o facto de gostar, por vezes, de estar na cozinha e essa ser a minha função… de mulher.

Para mim não é uma função nem uma obrigação: é uma característica minha como outras – às vezes gosto de estar na cozinha (outras faço-o por “frete”) como gosto de muitas outras coisas.

Não há no meu código genético um gosto por esfregões e tachos.

Aliás, a minha Mãe nunca gostou de cozinhar…

 

Há um longo caminho a percorrer neste país europeu que ambiciona ser… “moderno”, evoluído e muito século XXI.

Mia Berg

Mia Berg eveninthelight

Um bom retrato do nosso país no texto de Maria Filomena Mónica.

Num trabalho, publicado por Karin Wall, do Instituto de Ciências Sociais, e por Lígia Amâncio, do ISCTE, vemos que:

A quase totalidade dos portugueses (93 por cento) considera que, num casal, tanto o homem quanto a mulher devem trabalhar fora de casa, mas um número impressionante (78 por cento) diz que uma criança pequena sofre quando a mãe trabalha. Cerca de metade da população afirma que as mães se deveriam abster de trabalhar quando têm filhos com menos de seis anos. Ora, devido aos salários reduzidos da maioria dos trabalhadores masculinos, Portugal possui a mais alta taxa de emprego feminino da Europa, uma situação que só pode conduzir a que as portuguesas vivam em estado permanente de culpabilidade.

Os portugueses excedem-se verbalmente no seu amor pelas crianças: para 62 por cento, os indivíduos que não têm filhos levam uma “vida vazia”. Ora, são estes senhores, que tanto dizem amar os filhos, que se não dão ao trabalho de lhes mudar as fraldas, de os levar ao médico ou de os alimentar.

As mulheres portuguesas gastam três vezes mais horas do que os homens na lida doméstica: elas despendem, por semana, vinte e seis horas, eles apenas sete, o que dá uma diferença de dezanove horas semanais, uma média superior à europeia. As portuguesas continuam a ser exploradas, como se nada se tivesse passado desde o momento, na década de 1960, em que a minha geração ergueu a bandeira da emancipação feminina.

De certa forma, o destino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de ser pior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das supermulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três “babysitters” antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. Estou a falar, note-se, de mulheres socialmente privilegiadas. A vida das pobres é um inferno sem as consolações de que as suas irmãs de sexo, apesar de tudo, usufruem.

Imagem: À procura de um lugar equilibrado para o corpo numa sociedade que tem ainda muito para crescer ou a fusão do corpo com a Natureza de Mia Berg