“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Sem opção

Ainda este livro

É a 8ªedição e custou 35 escudos.

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(Já não encontrei cifrões nos teclados: o início da perda da nossa soberania).

Este livro é o retrato de uma geração.

Quando era mais nova pensava que sabia como tinha sido a vida das minhas avós e bisavós.

E sentia-me com alguma soberba ao comparar a minha vida com a delas.

Atingi a formação e a autonomia com que elas não sonharam.

Hoje vejo que, apesar do ganho ser evidente, também houve perdas e que a última vantagem: a autonomia, a independência, a liberdade é muito aparente.

Antigamente, as mulheres tinham de ser perfeitas donas de casa, mesmo que não sentissem dentro de si o apelo e vocação para tal.

Uma ida à praia implicava uma tarde na cozinha.

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Era exigente?

Era, sobretudo se não havia uma apetência especial pelos tachos.

E, hoje, temos uma vida menos exigente?

Espera-se menos perfeição das tarefas da profissional, mãe, ser social, mulher?

De tal forma andamos mergulhadas nas tarefas urgentíssimas que passar uma tarde na cozinha é impossível, mesmo que haja uma apetência natural pelos temperos e aromas do mundo culinário.

Significa que queira voltar aos anos 30?

Não.

Significa apenas que queria viver em 2013 mais devagar, com menos exigências e, sobretudo, com direito de opção.

Atingir a Liberdade é poder escolher.

E desse ponto de vista estamos muito longe de alcançar a Liberdade, enquanto mulheres e enquanto seres humanos.

Se me apetecesse preparar uma ida à praia com todos os requintes, isso devia ser permitido.

Se eu desejasse ficar entre a sala e a cozinha, essa opção devia ser facilitada, permitida e bem vista.

Em 2013, uma mulher optar por desenvolver uma actividade em casa e investir na formação nos filhos é um tema que continua a ser tabu e uma opção dificultada por toda a sociedade: estrutura e cidadãos.

O que é completamente coerente com a política vigente: quem não é produtivo e não vive pelo dinheiro deve ser cilindrado.

Quanto ao livro do início, a mulher que sou repudia o título, por intuir nas palavras A mulher na sala e na cozinha, a falta de opção.

Mas a mulher que sou repudia com a mesma convicção a falta de opção da mulher do século XXI.


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No último Natal, a minha prima Graça ofereceu-me esta tisana.

É da Herdade do Gamoal, alentejana, e proveniente de agricultura biológica.

Não podia ter recebido melhor prenda.

lata tomilho

Preparo-a como infusão, uma vez que nunca deixo ferver as folhas secas do tomilho limão.

Acalma problemas respiratórios e digestivos.

E perfuma os dias.

Entretanto, no meu pátio, o  tomilho limão cresceu. Muito.

E o da minha Mãe também.

tomilho

E eu pensei que era boa ideia incluir Infusão de Tomilho Limão nos cabazes de Natal do Frasco de Memórias.

tomilho 2

E cá está ele: cortado e lavado pela minha Mãe; e seco e desfolhado por mim.

coffret com cha

E ainda temos infusão de erva-cidreira, carqueja e poejo.
Tudo muito perfumado, pronto para aquecer as tardes de Inverno e acompanhar torradas com Frascos de Memórias.


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Presentes

Quando a nossa loja do Facebook fez um mês, lançámos uma iniciativa que nos permitiu conhecer melhor a nossa pequena comunidade (620 682 Likes): oferecemos um Frasco de Memórias a quem partilhou connosco a mais doce memória de infância.

Erro meu: não divulguei a iniciativa no blog.

Houve quem, com razão, tivesse manifestado o seu desagrado.

Ora eu não gosto que ninguém fique aborrecido comigo!

Solução: lançar uma partilha idêntica no blog.

Que bom!

Só precisava mesmo desta desculpa…

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O que é preciso fazer para receber um Frasco de Memórias à escolha?

1- Partilhar, nos comentários, uma memória de infância muito doce.

2- Tornar-se seguidor do blog (quem ainda não é, claro!)

Gostava muito de receber um apontamento da infância de quem me lê: um presente para mim!

A selecção da memória será feita por sorteio, com papelinhos, à moda antiga, se confiarem em mim 😉


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Vizinhos no coração

Viver na aldeia trouxe muitas vantagens à nossa vida.

Aprendemos a respirar mais devagar, quando seguimos o crescimento lento das flores e das plantas.

A Natureza nunca tem pressa e cresce de tal forma primorosa que nos coloca no nosso devido lugar.

Outra das vantagens: os vizinhos.

Não sei se é assim em todas as aldeias, mas nós fomos tão bem recebidos que ficámos, constantemente, sem saber como retribuir.

Aqui raramente sou Ana. Sou a neta da Sra. Rosa.

Ninguém imagina como é bom ser pequenina outra vez.

A D. Adélia é a vizinha da frente: preocupa-se se não nos vê e partilha connosco tudo o que a horta produz.

cebolas

abóboras D.Adélia

A Menina Lurdes é a vizinha do lado: tinha um café onde comprávamos rebuçados coloridos quando éramos pequeninos.

A minha Avó dava 20 escudos ao meu irmão para comermos rebuçados com os filhos das suas clientes da sala de costura.

A sala da costura funcionou, nestes três últimos anos, como escritório.

A máquina de costura não saiu do lugar e fez-nos companhia.

E há a D.Olinda, que vive mais longe, mas nos presenteia regularmente.

Com poejo, com espigas, com abóboras, chuchus, com sorrisos e boa disposição.

chuchu

abóbora D.Olinda

E a minha Tia Alice, que é vizinha da minha Mãe, e faz um passeio semanal com a Beatriz.

E que, para além do que não pode ser fotografado, me ofereceu esta pequena maravilha.

abóbora tia

Esta semana, mais uma vez, despeço-me do local onde comecei a criar raízes.

Levo todas estas ofertas no peito e rumo à nossa segunda cidade, Estremoz.

Não falo da minha família-berço e dos amigos que deixo, mais uma vez, porque não quero uma despedida demasiado triste.

Penso na família e nos amigos que nos vão receber.

Até breve!


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No céu

Vivo na aldeia há três anos.

Há três anos que espero acordar com o canto dos passarinhos.

Não era suposto ter um despertador melodioso?

A um quilómetro da minha casa eles voam e são tão estridentes que até chegam a incomodar a minha Mãe.

E ouvem-se cucos, pica-paus, rouxinóis.

E aparecem melros, poupas, pegas, pardais e até rolas que a Beatriz alimenta com a Avó.

Pelo meu pátio, nem um pardalito.

Ou seguiram já viagem para os países quentes.

em viagem

Ou passam o dia em casa da minha Mãe e vêem o meu pátio como subúrbios, aonde só vêm dormir.

pássaros a dormir

E eu continuo a suspirar por grandes concertos que não chegam.

pássaros a ensaiar

Pesquisei sobre estes habitantes do céu: sentem-se atraídos por locais com água fresca, comida, árvores, sol e sombra.

Talvez ande a falhar na primeira parte…

Os pássaros dos meus sonhos foram raptados do blog da ilustradora Anna Castagnoli, Le Figure dei Libri.


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Antecipar

Falta pouco mais de um mês para o Natal.

Aqui a casa já chegou há mais de três semanas.

Há quem pense nos amigos com antecedência e planeie cuidadosamente os presentes que quer oferecer.

E se lembre dos nossos doces e confie em nós!

Eu fico sempre com o coração cheio, mas em estado de ansiedade até que chegue o momento em que provam e aprovam os Frascos de Memórias.

Mas isso não me impede de me deliciar com este momento de embalar, um dos meus preferidos.

frasco embalado

E de pedir ajuda à Beatriz que vai escolhendo a decoração dos sacos.

cesto com mão da Bitinha

Um bocadinho aborrecida porque não embalamos tudo com os sacos amarelos e com os papéis amarelos, a sua cor favorita.

coração e anjo

Nem preciso de dizer que fazer os coffrets foi um dos momentos mais divertidos, para as duas!

coffret com bola

coffret com cha

A saqueta amarela segue a pedido da Beatriz, com muito papel de seda amarelo dentro (a embrulhar o Doce de Melão)!

Saqueta na hortelã


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Colhi este poema

No meu pátio, há várias roseiras antigas plantadas pela minha Avó Rosa.

Algumas de que gosto muito, outras cujas cores não me fascinam.

Umas e outras passam parte dos seus dias em copos, frascos e jarras cá em casa.

Reconciliei-me com estas rosas pálidas quando li “Arte Poética com citação de Hölderlin“, de Nuno Júdice.

Afinal, estas rosas encerram um poema!

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O poema lírico nasceu de uma roseira. Não

digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos

olham, primeiro que tudo, pensando

em cortá-la para a levarem consigo. É

a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,

vestida com a substância da terra:

a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por

acaso, e ela agarra, como se tivesse

mãos abstractas por dentro das suas folhas./

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,

como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio

de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher

que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva

dos lagos, os veios subterrâneos das humidades

ancestrais, e abriu-se como o ventre da

própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,

num barco tão fundo como a sua própria

morte./
Abracei esse poema. Estendi-o na areia

das margens, tapando a sua nudez com os ramos

de arbustos  fluviais. Arranquei os botões

que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor

verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe

que me falasse, como se ele só ainda soubesse

as últimas palavras do amor.
(Metáfora contínua de um único sentimento)

A Fonte da Vida